domingo, dezembro 17, 2006

ESCREVO

Escrevo cruzando as palavras, alinhando-as, interligando-as em grupos simbólicos ao sabor dos meus sentidos, das minhas emoções, das minhas tristezas, das minhas alegrias, das minhas relações, amores e desamores. Um passa tempo!... Este tempo que parece sobrar dos afazeres, como um espaço de nada, na vida suspensa das tarefas pré definidas. Um tempo em que podemos pensar nas coisas de que gostamos. Escrevo a Natureza, o verde das plantas, o branco da neve que reflecte o sol quando este brilha, a água que escorre da montanha e canta nas pedras dos ribeiros, a música dos pássaros alegres que fazem o ninho nas copas e cantam poemas de amor á luz da madrugada, o som das tuas palavras e gemidos quando nos amamos, o bater dos nossos corações, o brilho dos teus olhos quando, ao entardecer, caminhamos de mãos dadas na praia, e as ondas vêm quebrar o silêncio dos nossos corpos que, na planura da areia quente ainda do sol de verão, se juntam numa apoteose da cópula desejada.
Escrevo na madrugada, desperto do sonho que me trouxe o passado em que nos amámos com sofreguidão e sem pressa porque o tempo era só nosso e o mundo parava à nossa volta.
Escrevo à noite, quando no mundo parado, em silêncio, olho o teu rosto calmo dormindo, após um dia de luta e dever cumprido.
Escrevo nas férias que não gozámos, porque nos faltou o tempo ou o dinheiro, essa peste que a sociedade inventou para nos agrilhoar.
Escrevo para te dizer, quando não estás, que te amo e é para isso que vivo. Escrevo para te dizer o que os silêncios calaram e os gestos não foram bastantes para te dizer tudo o que queria e tudo o que te devo.
Escrevo dando-te as palavras que a mente fabrica, que os sentimentos modelam e os dedos martelam, numa cadeia de gestos para chegar junto de ti quando não te posso alcançar e acolher-te nos meus braços.
Escrevo para te dizer que, perto ou longe, a distância que me separa de ti é nula porque continuas, sem interrupção nos meus sentidos.
Escrevo no ar, poemas que não passam ao papel, porque o sentimento sobra e as palavras faltam, e sem gestos nem sons, continuo escrevendo em silêncio, porque no silêncio ouço a música do amor que ecoa nos recônditos do teu corpo que se oferece à minha mente e ao meu desejo.

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