sábado, março 22, 2008

XXV - AUSÊNCIA

O ruído é ensurdecedor. Este é o meu pequeno mundo de horror. No chão de pernas cruzadas, como que a ouvir uma história contada por um avô ansioso por brilhar aos seus netos, olhar de criança calada de vamos ver no que vai dar não sabendo ela como a história iria terminar ou a influência que a mesma iria ter no seu futuro, ali figurava eu, passivo, enublado, acorrentado a tremores sempre ouvia passos na minha direcção do lado de fora da porta daquele minusculo quarto. A guerrilha sem dúvida tomara a cidade de assalto. Poucas vezes vira a guerra como sendo actor principal num palco como este. O conflito sempre o vira nos papeis e nas fotografias, nunca havia-me borrado de pó ou de lama nem estado prisioneiro. O desconforto do chão de cimento, duro como aquela realidade não me deixava delirar por momentos passados.

Oiço passos de novo... calo os pensamentos. Nada me garante o ar que venha a inspirar momentos depois. A porta abre-se. Levanto a face como que encarando o meu carrasco. Uma moça claramente de traços muçulmano, carregada de pó nos seus cabelos pretos, carrega uma bacia de agua e um pano. Ao fundo do corredor que se encontra com outra qualquer divisão que desconheço, oiço vozes exaltadas, gestos rápidos de armas que discutem umas com outras. Julgo que serei eu o motivo daquela discussão.

“-American?” perguntou-me a moça enquanto levava o pano ao recipiente com água e de lá o tirou para em seguida o encostar à minha face ensanguentada onde jazia um corte profundo. Acenei com um não, a dor aguda que se fez sentir por breves instantes retirou-me qualquer capacidade de vocalizar um qualquer som ou grunhido. Apenas o silêncio era o que saía do meu rosto, agora um pouco mais a descoberto retirada a camada de pó que sentia agarrada aos poros.

A rapariga, claramente jovem levantou-se e por breves instantes fixou o olhar no meu rosto, como que contemplando-me pela última vez. Olhei-lhe de volta, o retorno do seu olhar havia ja desaparecido. Saiu fechando a porta deixando-me de novo sozinho no meu pequeno mundo, como um largo vazio.

Afogam-se as palavras plácidas de mim, não mais as sinto como há instantes. Antes de formuladas asfixio-as em rasgados pensamentos a embalar o meu destino em ti. Grande sorriso aberto e franco, grande o sentimento que acolho em mim e me acolhe a expressão dos dedos que descem pela porta daquele jipe na descoberta calada de algo que não se fez, para meu jubilo. Prendo todo o alfabeto nos meus braços e levanto-me, retorno ao meu veículo e confundo-me no sentir que extravasa calado em folhas brancas que piso a cada passo vazio de mim. Vejo-me ao reflexo do vidro que ali me separa da selva do espaço macio, sei que endoideci de tanto te querer como um devaneio a solta, uma vontade a galope desalmado que surgiu vindo não sei de onde como um vento que espalha brisas de perfume em nós.

Regressamos de novo às instalações da missão. Sabia que o caminho inverso não era possível de ser feito naquele momento sem o auxílio militar correspondente. Foram mantos e mantos de palavras que cobriram os meus pensamentos durante aquela viagem de retorno, sabendo que estarias além terra, sozinho talvez, ferido ou não, longe da tarde quente que havias amanhecido no colchão inventado contigo.

Silencio enternecido, derrotado, este que me encerrava os lábios. Era agora esse silêncio que me ditava o caminho... “-Não se preocupe. Havemos de o encontrar e resgatar para junto de nós!”- foram essas as exactas palavras que o furriel que conduzia o jipe me acenderam um pouco a esperança de encontrar Ricardo. Afastei o olhar do meu pensamento de que estas palavras já não existem, não posso fechar este livro sem ler o capítulo final e assim por isso, acendo a ilusão sábia da esperança e é entre os nossos lábios que iremos continuar a história...

(Continua...)

quinta-feira, março 20, 2008

XXIV - TRILHOS DE SILÊNCIO

Percorro contigo as mesmas ruas, sinto-te ao meu lado. Olho em busca do teu olhar e estou sozinha. Os degraus de um tempo que passa avidamente entre nós, dão-nos a certeza da presença ausente um do outro.

Tento adiantar-me ais dias atrasando as memórias cativas em mim sabendo-as futuras e com sede de as viver. Não posso acreditar e por isso faço batota comigo mesma. Corro à frente do sonho que pela noite me abraça e me fala ao ouvido de um amor real e que por isso não pode morrer. Sem qualquer receio corro, corro, passeio-me pela vida quando a manhã abre a porta e sigo a fantasia que a noite não me deu e que os dias não sabem que existe.

Grito o teu nome pela penumbra de um espaço mágico inventado, entre o crepúsculo do dia e os brilho dos arbustos, como se as nossas almas se tocassem. É alvorada de uma paixão que não quero interrompida, encruzilhada de lábios que se tocam e olhares desenhados sem qualquer sossego. É entre o encanto e o desencanto do fim do sonho que os nossos tempos se fundem e as lágrimas rasgam-me o rosto num suspiro de saudade que morre aos poucos.

É saudade, é desespero, são fantasias inventadas, partilhadas, dor imensa que me foge à carícia desejada, um beijo ansiado de uma presença ausente, num tempo que temo não ser mais o nosso... são gargalhadas, riso histérico da miséria humana que me deixa aliviada, é um rosto desconhecido que me envolve num desespero aliviado. Ajoelho-me ao mistério do caminho que tomaste e choro, soluço, rio com gargalhadas soluçadas. Sei-te vivo, sei-te vivo.

Penso-te nas linhas bambas do meu ser, por entre pensamentos surdos que esvoaçam na introspecção da minha meditação. Cruzo-me contigo em fugazes encontros de brumas e segredos enquanto caminho em terrenos espinhosos sem rumo certo e distinto. A espuma vermelha de um oceano de terror derrama-se por entre as esquinas do meu corpo. Envolvo os pés com as mãos e aguardo o meu destino que o peito demonstra sem qualquer sossego. Já pouco me resta sem qualquer receio, a angústia, a maré que me envolve a alma e que desapareceu num ápice porquanto me levam para longe de ti. São momentos vazios como noites de insónia estes que me trazem à memória o rosto de Melinda.

Neste recanto de um mapa desconhecido sei-me chegado ao destino desconhecido. Fazem-me sair soltando por entre berros gritos de guerra e ameaças concretizadas sobre o meu corpo. Várias vezes sinto na pele os fios de certeza bordados a areia que se atravessa por debaixo das minhas botas. Dirigem-me para um edifício sem insígnias, placas, letras ou cores. Apenas reconheço ao perto o edifício da Biblioteca de Sarajevo, um monumento inspirado no Alhambra de Granada e eregido à convivência multicultural até a artilharia sérvio-bósnia o reduzir a escombros já no passado ano de 1982. Inimaginável a história perdida por entre milhares de preciosos livros e documentos que muçulmanos, sérvios ortodoxos, croatas católicos e judeus haviam conservado ao longo dos séculos. Um história perdida que agora revivia na minha pessoa.

Mergulhei na escuridão de um corredor como gado empurrado para as brasas de uma marca de um dono que jamais conhecerá. Assim me sentia ausente mas terrivelmente presente numa peregrinação ao palco de horrores de um genocídio feito num só volume.

Fecho de novo os olhos, e consigo ouvir a melodia da tua voz, mesmo quando dela sai poesia sem palavras.

(Continua...)

segunda-feira, março 10, 2008

XXIII - O MEU DESESPERO

Migalhas, pedaços, estilhaços de alguém que fui, limalhas de um tempo que se fez gotas de um mar que sou mas que em areia seca se tornou, e agora, que me refaço, agora que me reencontro por entre partículas desconhecidas, cada uma com história em livros de séculos vividos em capítulos de murmúrios que me fizeram por entre a noite, onde os ainda oiço ao meu ouvido, escorrega-me por entre os dedos, preso em duas mãos, um futuro que nasceu em mim qual afluente secreto nos subterrâneos da pele, corro... corro sem alma em sangue vivo de vida pingando por entre um emaranhado de pegadas perdidas em busca dessa tempestade que me apazigua a alma e me preenche o sentido.

Abro os olhos e adormeço os meus desejos... quero ir alienada, coerente na razão aguentando a tempestade que me atravessa o coração, à procura do que é certo. A estrada está cortada. Dois veículos da EUFOR barram a passagem. Pedem-me para regressar, a cidade está sitiada. Tento-lhes explicar a importância da minha viagem, algures naquela estrada faz-se à deriva quem eu procuro. Insisto que devo passar mas as ordens são específicas e ninguém deve passar “- Nunca deixamos alguém para trás, nunca abandonamos um soldado, nunca viramos as costas a quem de nós precisa e não vai ser hoje que irei fazer isso sejam as vossas ordens quais forem.” Gritei com as fagulhas da alma pendurada no céu e um brilho nos olhos que me denuncia o desespero. Nas vozes soltas que o silêncio guarda, olham-me como personagens que somos num palco cujo enredo se faz com forças desconhecidas “- Não deixaremos nunca ninguém, deixe o carro e entre no jipe. Iremos em busca de quem procura!”

Aquelas palavras com poderes de magia aquecem-me o ânimo e sossegam-me o desespero. Entro no jipe e comigo acompanham-me 3 soldados da EUFOR, todos armados. Arrancamos repentinamente como a poeira que se levanta por entre os trilhos que galgamos. “-A cidade está fechada. Hoje não é um bom dia para se andar por aí sozinho. Existem muitas brigadas da guerrilha e esses atacam qualquer um apenas para poderem usar como moeda de troca.” – dizia-me o soldado enquanto percorríamos a estrada.

Num momento indefinido, ali ao longe mas ainda assim tão perto, fora da estrada, um dos veículos do aquartelamento. Conseguia identificar-lo pelo emblema e o código de identificação pintado na carroçaria. Não queria acreditar o que os meus olhos viam, uma silhoeta desfocada no local o condutor, inerte. Fecho os olhos e invade-me uma sensação amarga na boca. Sob a alucinação de cinco luas de brilho, os meus olhos perdem-se na imensidão do céu. O jipe para, saiem os soldados em reconhecimento de quem eu sei que não quero que seja. O tempo pára. Tão subtil e frágil é o sonho que nos toca ao de leve pois ao acordar lento da manha seguinte, pode ele já não se fazer presente. O sorriso... o teu sorriso que me falou nos silêncios que me encantavam com as palavras que ousavas me escrever com os teus olhos. Como é bom saborear a cegueira que me entregas nas entranhas, vincada nos lençóis onde nos deitamos, abraçados ao calor ardente da nossa paixão. Não, não queria acreditar ter-te perdido, ali, sozinho. Ainda guardo o teu beijo comigo, ainda o sinto no céu da minha boca e por isso não podes ser tu aquele que ali se faz sem alma, não podes.

Retorna ao jipe um dos soldados em passo acelerado. Entra e enquanto alcança o rádio profere as palavras que não queria ouvir “-Está morto!”

O mundo fraqueja e num instante o principio faz-se de fim. Solto lágrimas que me ardem na pele e o meu corpo estremece ao lume que se ateou dentro de mim, a alma rende-se ao desespero, saio do jipe e corro a procura do que é certo.

Não.

Não preciso de te recordar, sinto-te comigo, habitas dentro de cada recanto de mim e não posso por isso te perder.

Corro... corro a procura do que é certo.

(Continua...)

terça-feira, março 04, 2008

XXII - NAS TUAS MÃOS

Afundo os meus olhos dentro de mim mesmo enquanto minh’alma se entranha mata fora em busca de auxílio. Sinto-me a ficar ausente de mim mesmo sem perceber muito bem o que está a acontecer. Um sede fremente inunda-me enquanto o calor não cessa de aumentar como um lençol de fogo que me cobre a pele. Sinto-me cansado, muito cansado e já não sinto, oiço, nem os olhos se abrem mais mesmo que se procurassem num voo de fuga o fim do pavor que me desfaz os sentidos.

O barulho característico de um motor, os solavancos incertos de uma estrada de terra, estou com uma manta por cima do meu corpo e uma mochila por baixo da cabeça, sinto a fivela que a fecha. Abro lentamente os olhos, ao meu lado, homens de vestes incertas, fardas rasgadas, fumam como se um espólio tivessem capturado com a certeza de cada exalação, brincando. De certeza que perdi os sentidos e ao me ver dessa forma traçaram para mim um destino certo, provavelmente um que lhes traga lucro. Serviria eu de moeda de troca? Era esse o meu receio no momento. Sinto-me quebrado, desnorteado, fecho os olhos e deixo-me ficar, humedeço os lábios secos que me quebram a sede certa.

O dia nasce solarengo muito embora a ilusão do seu brilho desvanece por entre as areias quentes do deserto em que se havia transformado Sarajevo, e como uma miragem, num ambiente tragicamente mágico, reina o aroma único do desespero entorpecido por entre a cortina de fumo e fogo que varre as formas e contorce as planícies áridas da cidade.

Deixo-me ir deslizando pela praça sem saber muito certo o que fazer. Perdi a noção da realidade e o papel que me levara até ali. Paro... ali no centro do meu mundo olho ao meu redor... rostos cegos e silenciosos correm num festim silencioso, reflexos escaldantes, estagnados por fora, turbilhões e ventanias quentes por dentro. Eram os olhos, apenas os olhos que refrescavam o calor que subia na minha essência, um longo crepúsculo de desejos explícitos, invisíveis á superfície da alma que me despertam o ameno nascer de um dia que esperava ser tudo. Não posso deixar me vencer pela inércia, não posso. Olho ao meu redor de novo e procuro o carro que ainda na noite anterior havia sido testemunha da magia de um beijo. Corro, corro como se a minha vida dependesse disso em direcção ao mesmo. Não me importa o desrespeito da missão, qualquer acção deve ser comungada da sua reacção, e a minha, era partir em busca do Homem que se alongou à espreita da janela do meu longo Inverno, e ousou ao ritmo da chuva morna que se aninha no regaço das árvores, arrefecer a saudade das longas tardes de verão, oferecendo-me a luminosidade da Primavera que deixei partir numa manhã sem sol.

No brilho do meu olhar levava gravada a imagem do rosto de Ricardo, entregando-me apaixonadamente ao encanto dos seus traços, das linhas das suas mãos fortes com que me acariciava o cabelo na leveza de umas asas de borboleta. Saio como um sopro, rápida e segura na derradeira vontade de o encontrar. Deixo para trás anos invisíveis de silêncio cheios de sentimentos e emoções perdidas no tempo.

Corro neste imponente circo da vida em busca do meu equilíbrio sobre a fina fronteira do horizonte que me separa o dia da noite. As luzes que me guiam os passos fazem-se de faróis que ofuscam o publico que nesta plateia assiste ao meu desespero, sem rede, mas com certezas...

(Continua...)

segunda-feira, março 03, 2008

XXI - MEDO

Nas asas da saudade deixo-me vagear até as cortinas que me escondem o amanhecer. O caos que vejo lá fora corta-me a respiração, sufoca-me o intimo ao mais leve roçar de pensamentos julgados perdidos, instantes que outrora se fizeram tão próximos que desejei esconder.

Abro as cortinas, deixo voar no céu da noite este alvoroço desmedido que se estende por toda a minha pele e passeia em busca dele por entre um olhar desesperado. Conheço muito bem Ricardo, outrora companheiro da minha melhor amiga e não fora o seu acidente trágico certamente estariam juntos neste momento. Sei que não perderia esta liberdade de sentimentos que povoam aquela cidade. A sirene irrompe a azáfama que já se sente. Estaríamos a ser mobilizados para uma retirada estratégica. Certamente numa questão de minutos toda a unidade BTS-4 estaria já fora do aquartelamento e a caminho de um local seguro. Teria de me apressar não fosse o caso de me deixarem por entre a confusão que se instalara.

Rapidamente pego na roupa amarrotada e perdida em cantos do quarto e visto-me tapando a pele que à pouco se sentia tocada de uma forma apaixonada e desejada. Deixo à mercê dos meus pensamentos o destino daquele Homem que me fizera Mulher, que me inundara de um fervor intenso inflamando a minha pele de beijos e segredos por onde o toque dos seus lábios havia traçado um trilho ao baú fechado até então das minhas emoções.

Dando uso a todos aqueles anos de treino militar saio do meu quarto carregando já todos os meus pertences. Sabia perfeitamente que em missões como aquele nunca se deveria desfazer a mochila. Nunca era propriamente uma visita pacífica a uma ilha mediterrânica. Corro desesperada por entre a praça, os olhos saltam de farda em farda tentando reconhecer o seu rosto que me encanta e se torna agora fruto da minha agonia. Com a mochila as costas entro no seu quarto... vazio... aquela ausência que se perde no silêncio daquele espaço sucumbe aos meus impulsos suspensos e leva-me os joelhos à gélida calçada de cimento como que esperando por um sinal teu que me traga de novo a esperança já perdida.

Sinto em mim, em mim Mulher que algo de errado terá acontecido. O tremor das explosões que sinto virem da cidade, o ruído das armas que não se fazem longe dali anunciam que todos estão já de alerta e que naturalmente estariam a preparar-se para o êxodo. Não era o caso deste que fizera alcova do meu quarto crescente. Algo de muito errado acontecera. Sinto-o como a expressão do meu rosto quando a força da saudade me eleva os olhos ao céu.

Corro em direcção ao ponto de controle de entrada e saída do aquartelamento, carinhosamente baptizado por ele como “checkpoint”, o local onde esperaria por mim se algo acontecesse, tal como me havia sussurrado enquanto me julgava a dormir. Em meu peito arde agora o fogo de uma estrela cadente ansiosa pelo reencontro. Não o fazia como encantador de promessas quebradas por isso estremecia provocando-me uma sã loucura na alma. Pelo caminho presenciava um triste alvoroço de viaturas que chegavam com camaradas da minha unidade severamente punidos por uma batalha que não era a nossa. É inacreditável saber-nos num território hostil, estranho, apenas com intenção de imparcialmente auxiliar aqueles que se cruzam inesperadamente por entre balas perdidas, rostos de uma miséria tão actual, e ainda assim fazem das nossas fardas alvos preferenciais do seu egoísmo selvático e depravado pela conquista de algo que nunca fora deles.

Não consigo mais conter a melodia que o meu impulso ansiava e num instante, ao ver-me sozinha apenas com o soldado que se escondia por detrás da guarita, sabia-o ausente das instalações, perdido com a sua insana paixão por um prefácio a preto e branco capturado na lente da sua camera.

Num rápido e mordaz instante sinto o impacto na minha face de um objecto pesado que me faz cair para cima do corpo do soldado cujo nome nem me tinha dado ao sentido de o conhecer. Atordoado, de mim transpiram pedaços de desespero, resquicios de loucura e delírio desejando que tudo aquilo se transforme num pesadelo que me fará acordar nos braços de Melinda. De olhos postos neste luar que me aconchega as lembranças, as únicas vozes que oiço são de ódio e os olhos que me abraçam desferem golpes covardes no meu corpo que não lhes confere qualquer risco ou perigo. Não sei se preferia agora aquele destino ou o soldado que me acompanhou nos seus derradeiros instantes de missionário militar.

Retiram-me do veículo deixando-o ao abandono, sem respeito algum seu habitante, despojando-o da sua farda e botas, como se de um mendigo se tratasse. Não consigo correr, muito menos caminhar, ainda combalido do acidente e dos golpes que me infligiram, levam-me de rastos como um animal até um camião que ali junto a estrada aguardava por aqueles guerrilheiros, de que guerra seriam eles, essa era uma história que certamente muitos gostariam de conhecer. Não seria inédito ver ovelhas tresmalhadas de um exército por si só desmembrado, transformado em mercenários que buscam na guerra apenas e só o seu proveito próprio. Desses sim tinha receio pois nenhuma regra ou respeito se aplicava a eles. Temia pela minha vida.

(Continua...)

domingo, março 02, 2008

XX - SEM FRONTEIRAS

Pelo caminho observava longas fileiras humanas de rostos chamuscados, dissidentes de uma cidade desmoronada. Nos seus rostos, o desespero, a tristeza que os carrega pela berma da estrada, vidas interrompidas por vozes que ecoam de armas carregadas de onde o diálogo não existe. São aquelas rugas que procuro na minha lente, o brilho fosco dos olhos de uma mãe que carrega o seu filho como um tesouro acabado de encontrar no emaranhado de uns escombros.

O som ensurdecedor das AK-47, a arma de eleição dos guerrilheiros fazia-se sentir cada vez mais próximo. A cidade ao longe era cada vez maior, a brisa quente que me atravessava o rosto anunciava-me um inferno acabado de acender, brasas junto a um rastilho de pólvora prestes a ceder à tentação de explodir.

No sentido inverso, veículos da ONU regressavam apressadamente para as instalações. Feridos, sim, via perfeitamente fardas ensanguentadas. Olhei para o rosto do Tenente que me conduzia até à cidade, medo, era esse o sentimento que lhe desenhava o contorno da sua face ao ver soldados do seu batalhão feridos. Começara a achar que tinha sido uma péssima ideia a de sair do aquartelamento assim sem protecção. Chegado com o nevoeiro frio do amanhecer, um zumbido forte se estende em todas as direcções dos meus sentidos. Estamos cada vez mais próximos do Inferno e receio ter-lhe aberto a porta e de mão dada, juntos numa lucidez perdida, ceder-lhe passagem para o quarto mais escuro da Lua.

Um estalido, fumo, um sabor a ferro que se apodera do meu paladar, chamas, o jipe que rola descontrolado pela estrada fora. Ainda sem saber o que acontecera, sinto-me a ferver, um incandescente caldeirão de sabores e sensações nada agradáveis... procuro a linha do horizonte por entre o fumo e o nevoeiro, agarro o volante e instintivamente o travão de mão do jipe. Algo acontecera, deixei passar os efeitos cromáticos das cores e tudo o que via agora era a preto e branco, como se eu próprio fosse artista principal de uma de muitas das minhas fotografias. Obstáculos de pedras, arvores, ventos e gritos começaram a se formar à minha frente. O jipe despistara-se por entre o mato de uma das bermas da estrada. Segundos depois, paralizado, mostra-me o que não mais era uma parede invisível. Um qualquer engenho explosivo acabara de cair ali atrás, bem ao centro da estrada que percorríamos, um instante único separara-me de um escurecer eterno. –“Meu Deus!”- as minhas mãos, a farda que trazia, coberta de um vermelho rubro, vivo, estaria ferido? O meu pensamento corria uma maratona sem fim, cega... mas não, nada além de uns arranhões, cortes superficiais. O meu motorista, o Tenente que me acompanhava, morto... ali ao meu lado o seu corpo fazia-se inerte, atravessado por peças metálicas que apenas poderia supor serem do próprio jipe tal era o estrago que este aparentava.

Tentava resistir ao brilho do olhar sobejamente conhecido daquele rosto de pele dourada, queimada, bronzeada pelo ardente vício de uma guerra sem pátria.

Silêncio...

Nada se movia, nem um som ou a brisa suave se fazia sentir como era esperado numa manhã de Primavera. As lágrimas, a revolta, a desorientação de um momento nunca pensado ou mesmo desejado. Abro a mochila e tremulante retiro a camera. Aquele jovem soldado morrera sem conhecer o triunfo das baionetas, não seria um herói condecorado por salvar o seu pelotão das mãos de um qualquer inimigo algures por esse território hostil. Não poderia deixar de lhe honrar a vitória de me deixar vivo, mantendo-se sereno ao volante e evitando que o despiste me levasse a um destino idêntico. Aponto a camera ao seu rosto, e como se um sorriso grave deixasse os seus lábios. Como que com magia e firmeza, os dedos que agora se fecham tristes, apertam a nota soprada de uma partitura incompleta que ali se compunha por palavras soadas a gritos e desespero.

O fumo do cigarro serpenteava por cima da sua cabeça inesperadamente descoberto por entre a bruma do amanhecer. Do silêncio que há instantes se fazia, agora, transformado em vozes intimidantes e de um idioma desconhecido para mim, levava-me a uma realidade surreal. Armas apontadas a mim, gestos rápidos e ameaçadores para que saísse do jipe. Não me imaginara prisioneiro de uma guerra que não era minha.

É de olhos fechados que estendo a mão e te procuro na quieta madrugada dos meus sonhos, desconhecendo os cheiros únicos da noite escondida entre as cortinas fechadas do meu quarto. A sós, vagueio com dedos pelos lençóis que à pouco se preenchiam com o teu corpo, sentidos despidos de mim e de essência descalça com que dei a ti por entre janelas abertas de paixão.

No fundo de mim encontro vestígios de ti, como tatuagens de mil cores que acendem o misterioso indigo do céu ainda escuro mas com clareiras venenosas de emoções contraditórias. Cheiros unidos e o sabor da tua boca leva-me a querer beber ainda mais da pureza da tua fonte por onde correm águas cristalinas de um rio desenhado nas linhas das tuas mãos.

Na maciez dos lençóis que se fizeram ninho para nós, como que erva orvalhada, amanheço o sentir do meu corpo e procuro-te de novo ao meu lado. Estendo a mão e não encontro o calor da tua. Serena como a aurora que acaria os seios que se fazem desejosos à saudade, sei que os sonhos são assim, quando abrimos os olhos, já lá não estão. Mas as marcas na pele, o sabor, os cheiros, a sensação que me inunda ainda as entranhas que me levam ao pomar do fruto proibido, dizem-me o contrário. Então porquê a ausência?

(Continua...)

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

XIX - REBELDIA

Sem arrependimentos, sem dúvidas ou porquês, ali ficamos, um junto ao outro num profundo silêncio de pasmar nocturno mas naquele conforto perco-me entre o vazio e o cheio que me foi oferecido como que a cair de um lado e amparado do outro. Questiono, mas não quero a resposta. Fecho os olhos e adormeço.

Acordo, olho para o relógio que se manteve no pulso e sei que a noite ainda se faz. Há noites assim, em que nada me deixa dormir e tudo me faz pesar a mente. Ao meu lado um corpo quente se faz parado numa desmedida compensação de desejo. Olho para o lado, não a vou acordar. É dentro de mim que preciso de me encontrar e selar a ilusão de um beijo com o cheiro que se mistura com o meu e saber o que querer entre os meus braços vazios. Estendo um toque suave ao rosto que acolheu os meus lábios para sentir aquele calor em mim e vagarosamente saio dos lençóis, coloco a roupa que até à bem poucas horas carregava e decido sair, aventurar-me pela noite naquela cidade envolvida num turbilhão de emoções opostas.

Abro a porta de entrada deixando apenas o olhar procurar sombras nocturnas de vigia e escapar sem ter de enfrentar consequências piores à que esperava ter naquela manhã quando me reencontrar com Melinda. Certamente que o mundo liberal e a semente da paz é muito mais frágil mas não pretendo magoar ninguém. Ninguém no horizonte, saio apressadamente mas num silêncio absoluto, a segurança será encontrada no perímetro do meu aquartelamento.

Hoje é noite de guerra, a cidade pegou fogo. Os veículos encontram-se fora. Certamente uma missão de urgência foi iniciada. Sinto os lábios molhados, um êxtase diferente mas nem tão pouco menos entusiasmente me enche as medidas dos olhos e lanço-me ao desafio. Entro nos meus aposentos e carrego na mochila os rolos e a câmara.

O sol começa a despontar em luz ténue e encantatória, atrás de si um rasto avermelhado alumia os tons nocturnos mostrando-me o caminho a levar. O sabor dourado daquelas chamas consomem o meu desejo de as capturar, aprisionar os instantes que nos devoram a sanidade das sombras lascivas na penumbra. Corre uma brisa morna, saio ao alcance do perigo mas o espaço que já não é espaço, abre lugar ao infinito de tudo aquilo que os meus olhos encontram no horizonte.

Passo pelo “checkpoint” identificando-me de imediato ao soldado de plantão – “Algum veículo que me possa levar até àquele ponto no horizonte?” – indicando na direcção do avermelhado que sobrai no horizonte – “Salte para cima daquele jipe que está ali fora, o Tenente poderá o levar a um local seguro.” – respondeu-me o soldado.

Escrevi todas as regras pelas quais mordazmente me desafiava a seguir, segurança em primeiro lugar, e agora pelo gosto audaz de me sentir o rosto queimado pela vontade de fotografar, quebrava-as a cada passo dado.

Quero saciar o caos que me queima e lacera o discernimento.

Abro as portas à rebeldia...

(Continua...)

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

XVIII - MAGIA

Um beijo, o olhar que trocamos, a Alma que se toca por entre carícias perdidas. Gostava que as palavras fossem dedos que se enlaçam entre as mãos. Gostava. Gostava que o toque fosse como sentir o que já senti e o que nunca senti. As palavras são apenas voos rasos entre recordações que ainda não tivemos. O que sinto não se faz em palavras, não se desenha em telas, não se toca nas melodias do pensamento fugitivo.

Aconchegamos os corpos um no outro, aninhados na sua nudez fisica e emocional. Os olhos fecharam-se, passamos a ser estranhos num mundo apenas nosso. Gostava. Gostava que o tempo fosse carícia que me aquieta sempre que ao longo da pele dos dias quando não a encontro nos meus olhos. A alma pede. A alma evita. A alma fica. As palavras travam. A voz silencia.

Enquanto ali deitado, os pensamentos percorrem-me o rosto denunciando sentimentos contraditórios. Gostava. Gostava de poder sentir nestes abraços intensos de divagações que o coração me empresta, um pouco mais, muito mais de um amor interrompido. O coração... aquele que me aperta o peito e me desfaz a razão em pulsações descontinuadas, acelera sempre que oiço a voz dela. Gostava de parar. Gostava de sentir o vazio da vida e preencher-me apenas de alguém que me inunda totalmente o meu ser.
Gostava... gostava de olhar para ela e dar-lhe em silêncio todo o Amor que fervilha dentro de mim...
É.
Gostava...

Encerro o pensamento e dou por mim a deslizar os dedos pela sua face de onde espreita um sorriso acalentado pelo calor que nos rodeia. Sinto felicidade no rosto dela, um desejo cumprido e realizado, sinto-a aninhada em mim procurando a protecção para uma noite que se faz já longa. Abraço-a e pouso o meu rosto junto do seu.

Na embriaguez dos sentidos procuro nos pensamentos a ponte que me leva ela. Tento fixar o meu olhar, a tua pele, o teu toque... Oiço vozes que preenchem as horas vagas e silenciosas daquela noite. Em mim tudo sinto como um todo onde eu e tu somos os únicos elementos deste universo de emoções. No teu prazer encontro o meu, na tua pele encontro a minha. Queria poder mergulhar no fundo dos teus olhos e desse toque primeiro, atingir o centro de um orgasmo de Amor.

No todo que somos o teu sorriso é o meu, a tua língua é a minha... o beijo é mel que nunca me sacia desta fome louca de ti. É nos teus lábios que me dás asas para contigo ir na doce obsessão de uma cama desalinhada, dois corpos enleados, dois amantes esquecidos do tempo... Na carne espicaça o vicio do cheiro de amar, no coração bate o doce aperto de não conter o lume de paixão que arde em todos os poros.

Sinto magia a acontecer por entre os pensamentos que se cruzam com os sonhos...

De pensamento descalço, caminho pé ante pé. Oiço o eco dos meus passos ressoando dentro de mim como vozes e segredos que me cantam á alma no silêncio da noite. Sei para onde vou, sei para onde me chamas, sei para onde queremos ir. Sinto-te em cada passo simultâneo que damos sem saber. Não te vejo, nem tu me vês, mas sentimo-nos á distância do aroma do beijo que ansiamos.

Dou asas ao sonho e carta branca ao coração para me guiar nesta estrada de bermas escuras, onde as sombras que me espreitam não me assustam, nem a névoa do súbito fim da estrada me demove da caminhada.

Sigo os teus passos que são os meus...e rapto-me da realidade para ir ao teu encontro. É para o calor dos teus braços que me levo sonhando, em cada encontro de mim...em ti !

No todo que somos, é quando não te tenho junto a mim que mais sinto o Amor que preenche o nosso universo, mesmo quando estamos longe dele, e quando perto, renova-se a cada olhar, a cada carícia que se cruza por entre nós...

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

XVII - CAÇADOR DE SÓIS

Aqui chegou o silêncio. De um fabuloso dia mágico descolou-se uma misteriosa noite, olhava para um céus polvilhado de estrelas, uma a uma levando-me para outra dimensão. Atrever-me-ia a espreitar? Deveria ousar em conhecer esse mundo que se oferecera ainda a pouco e cortar a fita vermelha e ser convidado de honra? Sabia-me certo por um pouco mais de magia.

É certo que procuro o aconchego nas lembranças, abandonado e inquieto aninho-me no colo do meu tempo e sei que me embalaria numa dança ausente onde só os olhos fechados conhecem os passos. Já deixei de ser criança e o querer quente de um beijo desperta uma poção de prazer que guardo sob a minha pele.

Enquanto isso o percursso de regresso fazia-se rapidamente. Melinda no seu silêncio guardava certamente para si aquele encanto de um beijo trocado, tatuado a tez de saudade. O sorriso que escuto trazido pela brisa vinha da minha janela, é a resposta que me seduz sabendo que também eu ouvia a mesma musica que nos havia embalado.

Chegamos. O carro pára. Nenhum dos dois se mexeu. Como que estátuas perdidas numa praça de uma qualquer cidade, apenas se ouvia a respiração às cavalitas, um convite pleno à estrada da ternura que nossos olhos semearam. Saí prontamente do carro, não podia ceder aos que os meus desejos me pediam. Aninhei-me junto a porta apertado por um labirinto sem respostas ou caminhos descobertos que me dessem uma escolha fácil. Lentamente oiço o germinar de passos cristalinos no meu alcance, um leve toque no meu rosto, aqueles dedos, o leve afago da lua no rosto -“Acompanhas-me ao quarto?”- aquelas palavras, qual tridente, arma branca de Neptuno que me leva por oceanos por descobrir.

Soltei as amarras e deixei a nau navegar ao sabor da brisa daquela noite, encontramo-nos de novo num olhar junto a porta do seu quarto, a travessia havia se feito cega e muda. Abriu-se a porta e as mãos tocaram-se num claro convite por campos de girassóis descobertos a dois. Entramos, o quarto desprovido de luz fazia-se apenas descoberto pelos raios lunares que penetravam pelas frinchas daquela que era agora a nossa janela. Os seus olhos brilhavam como se um encantamento houvesse sido lançado, a aproximação cúmplice, os lábios quentes e molhados que se deixam reencontrar, as mãos que percorrem o caminho da pele, um suave trilho traçado ao acaso entre montes e colinas de desejo que as vestes ricas e doces de paixão vão desabotoando aos poucos.

É encantamento sim, sagrada peregrinação impulsiva à cabana dos desejos que no centro do corpo expectante aguarda a chegada soberana do prazer maior. Inspirei, no ar sente-se já o aroma raro e mágico de incenso que dos nossos poros se solta e mistura em núvens de carinho. Agradável e alucinante perfume de nós que a nós retorna e nos vicia neste sonho de desejo. Este alucinado sentimento que não se vê, sente-se e oferece-se em cada momento atenuando e dourando a saudade noutros dias menos festivos e longinquos. O momento que não pára, singela esta a forma deste instante que tudo é e em tudo se transforma, por tão simples o ser. A mirra traça e enlaça os braços que se tomam, nas mãos, marcas doces que ficam nos trilhos traçados e o arrepio provocado na doçura do peito que se afirma ansioso.

As bocas desorientadas, perdem-se numa ânsia das línguas húmidas e inquietas, mãos enlouquecidas e trementes servem agora de guia dos corpos sedentos, que se deslizam, tacteiam na avidez do desejo de se terem, o sorriso cúmplice preenchido de luxúria, contemplamos nos olhos o campo de girassóis calados pelos lábios que se tocam e trocam sussurros de quereres e sentires. Completamente perdidos na essência deste momento, carrego-lhe o corpo até junto do meu e como um príncipe encantado montado nos seus joelhos, invado carinhosamente o íntimo, numa conquista mútua de sensações plenas que nos fazem estremecer o âmago e disparar o pulsar alucinado da paixão. O murmúrio de um delírio pungente que lateja por toda a nossa pele, a mente desassossega-se a cada instante que se faz com o movimento do corpo que lhe invade de novo, lentamente, conhecendo-lhe o olhar enquanto me afundo para lá da linha do horizonte. De olhos vendados com o ritmo do desejo que aumenta a cada segundo, dou asas as mãos que lhe procuram os seios sedentos pelo toque, os gemidos profundo são como mapa nesta estrada que me guia pelo prazer partilhado a dois... rapto-a da realidade e estático cedo ao sabor de um beijo profundo, calor da alma que se funde nos nossos lábios –“Quero tudo!”- diz-me ela por entre olhos semi-cerrados e as mãos que cravam no meu dorso. O recomeço alucinado, o enlaçe das pernas nas minhas como raízes de um momento que se faz eterno, a transpiração ofegante dos corpos que gritam por sensações escondidas, reprimidas, sinto o fluir da seiva que brota de nós e se dilui por entre um gemido longo incontido da alma.

O silêncio sacia-se agora das loucuras mais secretas, oferecendo a beleza das cores únicas dos corpos molhados e mistura-se em tons e cheiros de Amor. Beijo o seios com a palma das mãos e afundo o olhar na essência do brilho que brota por entre as pestanas humedecidas nos nossos sentidos.

(Continua...)

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

XVI - O MEU ABRIGO

Enfeitiçados pelas saudades, caminhamos pela estrada fora conversando um para o outro, enquanto isso, o céu abraça a terra e a linha do horizonte dissipa-se, estremecemos quando o nosso olhar se toca, e revivemos as sensações já perdidas nas brisas campestres, mas guardadas na alma.

O brilho de prata e ouro, elementos que um dia admiramos no dedo de alguem, intensificou-se com a distância, nas nossas mãos entrelaçadas, sentimos fluir uma sintonia cósmica que não se explica, contemplamo-nos sorrindo e fechamos os olhos enquanto as palavras eram trocadas assim, sem nos tocarmos, saciando a fome do corpo, apenas com o calor que emana da nossa pele.

Os lábios, entreabertos, sedentos, esperam algo invisível, tremem, desejam, e entregam-se ao tão esperado toque mágico, a tal carícia doce e perfumada, que nos abre as portas do Paraíso, o beijo nosso, que tanto desejámos na imensidade dos dias que o calendário não marcou, porque para nós, o tempo não existe, temos e teremos sempre a eternidade a nosso favor. Traidor, os sentimentos revoltos faziam-me sentir um traidor, penso levemente naquele leito que acolhe o meu coração, e eu aqui, desperto.

Dentro da febre da ansiedade que me consome a alma, o mundo vai perdendo a sua forma, delimito horizontes oblíquos, traço fronteiras de luz no céu, vou mais além de mim, do que é permitido, escrevo um livro de momentos, onde o título já não faz sentido, a capa está corroída pela saudade, e a estante já não comporta o peso das emoções desta história inacabada, que o Amor vai tentando escrever.

Na minha pele, foi escrito um prefácio, quando a maciez de certas mãos, deixaram em mim, pedaços da sua essência, carícias de letras, longos beijos molhados de momentos inventados, colados de desejo no silêncio das nossas bocas, frases apetecidas, toques e suspiros de sílabas quentes, deslizantes entre o tempo e a eternidade que aquelas palavras ainda contêm.

Na imensidão de capítulos escritos e por escrever, vejo-a nas entrelinhas, cruzamos olhares, fingindo não nos ver, folheamos o livro, e enganamos a sede da alma, quando em simultâneo, insistimos em virar e deixar para trás, mais uma página vazia de nós. O silência imperava perante o nosso beijo, um acto que ambos procuravamos, mas não própriamente desejável. Entre um singelo pestanejar e o delicado bater de asas de uma borboleta, o ar incendeia-se a qualquer movimento nosso.

Continuamos o percurso a pé até encontrarmos o veículo que nos havia trazido - "Melinda, obrigado por me mostrares algo que nunca pensei encontrar e reencontrar-me com os meus desejos." - Os seu olhos cintilavam enquanto anoitece cada vez mais. O caminho de regresso era longo, não encontrava explicações para nenhuma palavra ter saído dos seus lábios após o beijo. Estaria sentida pelas minhas palavras? Fosse como fosse o brilho dos seus olhos me diziam claramente para não fazer questões. Olhava pela janela já submersso num mundo novo, entrei sem licença para sofrer, aqui tudo é belo, tudo me faz sorrir, tudo é raiado de esperança, encontro novamente o Amor em mim, desta vez, apertado num canto qualquer, de onde não se quer escapar, aqui não há medo nem receio, sei que, tal como a flor nasce da semente, também a força florescerá em mim, e de novo olharei o mundo com os meus olhos, amanhã, mais perspicazes do que hoje.

Em mim, a presença, o sentir, o desejo perdura, mas de uma outra forma, aquela que eu quiser que seja, nada muda, mas tudo será diferente, ganhei um degrau nesta subida que me leva rumo ao conhecimento, não olho para trás, levo tudo em mim guardado, como um livro que me guia o caminho, pois só assim, a posso sentir sempre mais perto, quando a saudade insistir em chegar.

(Continua...)

quinta-feira, janeiro 31, 2008

XV - MOMENTOS AGRADÁVEIS

Sentamo-nos num dos cantos da sala. O ambiente acolhedor e a meia luz convidada à intimidade. A sala decorada com alguns objectos claramente antigos e de referências ao pastoreio, evidenciavam anos passados, estagnados numa realidade que deixara de existir mas sem qualquer evolução.

- Surpreendido, pelo que vejo nos teus olhos, estou certa?

- Sim posso-te afirmar isso mesmo. Não esperava que num local como este, no seio de um conflito como o que decorre lá fora, possa existir este espaço que embora rudimentar, não deveria supostamente existir, pelo menos é essa a ideia de quem se encontra ausente desta realidade.

Sorriu dando-me a entender que esperava aquela mesma reacção da minha parte. Sentia-me um perfeito turista ignorante não fosse os ruídos esporádicos que lá fora se faziam ouvir relembrando-me que não estava de férias. Mas decido em me abster por momentos e aproveitar aqueles instantes, não sabendo quando os poderia voltar a reviver. Afinal esse fora um dos motivos que me trouxera até aquele local, reviver.

Melinda entusiasmada foi pedindo de uma ementa feita num rectângulo de madeira plana tendo uma folha agrafada com a descrição das possíveis refeições. Deixei que pedisse por mim confiando nela o meu possível paladar surpreendendo-me de seguida ao pedir uma garrafa de vinho tinto, soube-o assim que a mesma chegou até nós nas mãos de um garoto todo amarrotado, de cabelos castanhos e uns olhos do tamanho do mundo. Não teria mais do que 5 a 6 anos e estava já ali a ajudar os seus pais certamente.

Chianti era o vinho escolhido. É um vinho tinto italiano produzido na região da Toscana. Com toda a certeza a sua presença ali era fruto da contrafacção, usual em momentos e locais como aquele. É um vinho tinto seco com aromas de fruta muito concentrada e é produzido com as uvas Sangiovese. O Chianti combina bem com comidas leves e os seus sabores e aromas de violeta e cereja são impressionantes. Mais impressionante fiquei com esta escolha, não só porque adoro particularmente este vinho mas porque tinha sido escolhido por Melinda.

O serão prolongou-se. A conversa mantinha-se a um nível um tanto formal, roçando por vezes alguns pormenores íntimos mas nada reveladores do que fosse. A particularidade da forma em como se exprimia e falava demonstrava-me que confiava na minha pessoa.

Fiz uma pausa e pousei o fotografo, deixei-o aberto à mercê da brisa que sopra da voz que do outro lado da mesa me chama e em certa medida me encanta.

Fascinado, sigo o meu querer, não me impeço de correr sob a cor azul do céu dos meus sonhos e poiso no conforto das frases abertas que me enlaçam.

Sem dúvida que me desperta anseios, os sorrisos fluíam em carícias ardentes que as mãos selavam em toques escondidos, movidas pela sintonia mágica que flúi para além de nós. Nem sei bem o que comia. O desejo que escorre dos meus lábios húmidos dá-me a provar o sabor doce e quente de algo à muito esquecido.

Incendeio fantasias no fogo da minha língua e solto um Sol imenso que me derrete os sentidos e me inflama deliciosamente a pele. Sabia-me a percorrer estradas perigosas rumo a um destino incerto. Num olhar nos olhos meus, senti que entreabria sensações profundas que encontro apenas quando inebriado pela lente da minha câmara, enfeitiçava-me aquele momento e sentia que Melinda absorvia por completo a minha alma para dentro da dela.

Terminamos o jantar e ao olhar em nosso redor as mesas faziam-se vazias. Tínhamos perdido a noção da realidade, do tempo que se estendia à nossa frente e ditava as suas vinte e três horas. Era noite já e tínhamos passado das brincadeiras de criança que nos fizeram esmurrar joelhos ao primeiro beijo na primária. Foi bastante agradável a leveza do tom relaxante partilhado ali.

- Saímos e continuamos a nossa conversa lá fora? – questionava-me por entre um olhar já claramente a evidenciar um entusiasmo Chianttiano. Estranhei apenas que se não estaria ambientada ao seu efeito, o porquê de o ter especificamente seleccionado. A frescura da noite fazia-se já sentir. Recordava-me a noite Londrina com o seu nevoeiro característico.

Amontoam-se palavras soltas no espaço infinito, pairo na dormência da inspiração. Lanço ao ar os dados deste jogo que me impus e espero que as suas pintas me ditem devaneios ao ouvido. Assim o desejava.

Contemplo a Lua estranhamente calada e no brilho das estrelas que riscam o céu procuro uma centelha de imaginação. Sentia que vasculhávamos na nostalgia da noite escura uma ideia mais audaz, que nos permitisse soltar os desejos e entregar nos nossos passos, os momentos que fervilham no quarto escondido das nossas loucuras.

Atraso o relógio, acrescento dias que não existem ao calendário das minhas fantasias, e sento-me, na indecisão de permitir que o tempo se faça de um instante longo e que dure mais que apenas um momento.

Sem a bússola que me orienta o discernimento, enleiam-se o passado, o presente e o futuro, entrelaçam-se nas minhas mãos perdidas e sem norte, os dedos paralisam na apatia deste momento devoluto de sonhos.

Sinto-me ausente de mim..

quinta-feira, janeiro 24, 2008

XIV - CONTRASTES

Nada naquele momento fazia já sentido, talvez pela obtusa realidade com que me tinha deparado em um espaço e num tempo afastado das cartas abandonadas que até mim chegaram. Estava visivelmente intrigado com esta carta que me deixaram mas ainda mais chocado com o embaraço com que me coloquei, embora não podia deixar de ter notado no corpo visivelmente moldado e polido de Melinda – “Estás aqui para fotografar e não para outras coisas ouviste?” – impunha-me numa afirmação que questionava a minha integridade emocional. Necessitava de me manter focado para o objectivo em mãos e deixar de fora qualquer situação que o possa por em causa.

De regresso ao meu quarto deitei-me por um pouco. Não sabia se era já o cansaço da viagem ou toda aquela comoção mas necessitava de fechar os olhos mesmo que por breves instantes. Acertei o relogio para as dezanove horas de forma a que despertasse a essa hora. Um duche rápido iria me oferecer outro ânimo, e assim, me deitei aconchegado com uma manta e deixei-me levar pelo cansaço que me fechava os olhos lentamente.

Repousava neste mundo diferente, sonhos perdidos como um puzzle davam luz às imagens e cores que me aconchegam neste instante em que adormecido, recomponho-me – “Ricardo… abre os olhos, acorda!” – aquelas palavras chegavam-me de tão perto, como se o universo me tocasse e o céu se fizesse terra.

– Ricardo, estás bem? Acorda! – e de repente da escuridão se fez luz e aquele rosto ali junto a mim confundia-se ainda com a névoa feita na minha mente.

- Melinda, que horas são? – questionei dando um autêntico pulo da cama, qual canguru amestrado que face à sua recompensa cumpre rigorosamente as suas acrobacias.

– Neste momento já devem passar uns dez minutos das vinte horas. Como não estavas lá fora e não respondias às batidas na porta decidi entrar.

- O cansaço, à algum tempo que estas longas viagens encontram-se fora do meu itenerário – desculpava-me do atraso tentando perceber porque o meu relógio não havia despertado.

- Pensei que estivesses ainda deitado a descansar realmente porque vi em ti um cansaço pesado que realmente merece o seu descanso. Adiamos o jantar para amanhã e assim descansas, parece-te bem?

- As minhas promessas cumprem-se, por isso hoje vamos jantar sim – afirmei como um perfeito capitão que se afirma perante o seu pelotão querendo ganhar o respeito dos infames e prevaricadores.

- Optimo! Dez minutos devem chegar para te recompores, assim sendo, estarei lá fora junto ao parque de viaturas num dos jipes a aguardar por ti. – e dizendo estas palavras sai da mesma forma silenciosa com que entrou.

Assim sendo mudei de camisa e refresquei-me o melhor que pude naquela fracção de tempo, e mesmo antes do prazo que me fora dado terminasse, estava já a sair dos aposentos em direcção ao veículo que nos levaria ao restaurante. Entrei para o lugar de passageiro já que ela mesma ocupava a função de condutor. Confesso que nunca fora conduzido, e a reacção intrigava-me. Saímos sem que uma só palavra fosse abordada. Durante o percurso admirava uma cidade destruida pelas palavras soltas de vozes que gritam algo que um povo inteiro não deseja, assistia esse desespero por entre as faces quebradas de viajantes exilados que junto à estrada caminhavam em direcção a um sol nascente sem nada mais, do que a própria esperança, e enquanto isso eu mesmo ia naquele instante a caminho de um certo restaurante que desconhia e me questionava como ainda existia. No mínimo a ironia tornava tudo aquilo ainda um pouco mais interessante.

- Chegamos – e dito isto Melinda aponta para um casa de dois pisos, com luzes acesas no rés do chão, as paredes de pedra estavam ainda bem compostas e não me apercebia de qualquer marca ou passagem de todo um conflito que ali tão perto se fazia. Entramos mesmo sem bater como se de um banalíssimo restaurante se tratasse. O meu espanto não tardou. Mesas redondas compostas com uma toalha avermelhada e umas listas brancas, duas velas acesas por cada mesa, pratos de barro tipicamente de épocas antigas e senhoriais e uma senhora que aparentava já uma certa idade atarefada de mesa em mesa a servir o que pelo característico odor me sabia a cabrito assado.

- Não acreditaste que te traria de facto a um restaurante?

- Nunca imaginaria este cenário sereno e idílico enquanto lá fora decorre uma guerra. Isto é como se ao entrar por aquela porta acabássemos de abrir as portas a um sonho.

Desconhecia o idioma local. De facto apenas o inglês e o francês eram os idiomas que dominava e assim, logo que a aquela personagem feminina que por ali servia se aproximou e nos atirou vocábulos que desconhecia, optei por deixar Melinda tomar conta da situação. Algo me dizia que aquele jantar seria por si só já um extra face a toda aquela surpresa que não exitei em captar em alguns cliques na minha câmera que me acompanha sempre.

(Continua...)

sexta-feira, janeiro 18, 2008

XIII - EMBARAÇO

- Perdoa-me! – exclamei visivelmente incomodado e sem saber muito bem o que fazer. Virei costas e mantive-me ali porque uma explicação deveria ser dada a Melinda – Perdoa-me mais uma vez, deveria ter batido e pedido permissão para entrar. – O silêncio que ali se fazia cortava-me a alma tão fina era a faca que se fazia presente na minha mente, a qual certamente usaria para me apunhalar por tal intrusão.

- Ricardo, podes te virar. Já estou composta! – disse-me Melinda no seu tom de voz calmo mas visivelmente trémulo pelo choque de tal intrusão suicida. Ainda incrédulo com o meu acto baixei-me e voltei a segurar o fruto do meu desvario e como pedido voltei-me de novo. Segurava já um casaco militar que iria vestir sobre uma camisa branca que havia já vestido, calças e sapatos, nem eu me vestia tão rápido quanto ela.

- Gostaria apenas que me ajudasses a descobrir quem poderá ter mexido na minha mala e lá colocado esta carta?!! – perguntei-lhe com o olhar semi-fechado qual pecador diante do seu pecado e segurando a carta por entre os dedos da minha mão direita.

- Dirige-te ao Posto de Informações e questiona quem fez o transporte de toda a nossa logística desde o aeroporto até aqui e certamente terás a tua resposta.

O tom impregnado naquelas palavras deixaram-me curioso porque evidenciavam uma subtil raiva mas no seu contraste um sorriso latente.

- Foi apenas para isso que aqui vieste e entraste desse modo nos meus aposentos? - esta era a questão que queria evitar a todo o custo. Era agora que certamente me iria levar a Conselho Militar e expulsavam-me daquela missão.

- Melinda, a minha reacção a esta carta não justifica a intrusão mas acredita que não pretendia que isto tivesse acontecido e peço-te que me perdoes.

- Jantas comigo, não na messe dos oficiais mas fora daqui. Falaram-me de um típico restaurante ainda a funcionar fora dos limites da cidade. Talvez assim esqueça este episódio.

Honestamente não sabia o que responder. O embaraço era tão evidenciado que inclusive havia já esquecido o motivo que me levara a cometer tal infracção. Acedi com a cabeça num acto pecaminosamente redentor. Voltei costas e dirigi-me para a saída – Encontramo-nos no ponto de reunião militar pelas vinte horas? – perguntou-me estava eu já com a mão na porta para sair.

- Sim, perfeito. Vinte horas para mim é perfeito. – e atirando estas palavras por cima do meu ombro saí apressadamente. A brisa que me afagava o rosto era um refresco para a alma. Sentia um embaraço de pernas, um breve tremor de artérias, uma confusão na boca, uma batalha de veias. Continuei a caminhar em direcção aos meus aposentos. Decidi esclarecer as palavras que ali tinha escritas na palma da mão numa altura em que tudo o que saísse do pensamento fosse racional.

(Continua...)

quinta-feira, janeiro 17, 2008

XII - TENTAÇÃO

Eram quase praticamente seis hora da manhã, hora local, quando aterramos nas imediações de Sarajevo. Foi-nos indicado que não aterraríamos mesmo na cidade por questões de segurança – “Deixa as malas que serão entregues no quartel de campanha e vem comigo!” – disse-me Melinda assim que saímos do nosso transporte aéreo. Dirigimo-nos para um automóvel da marca Skoda, verde garrafa, com evidências de choques, e uns buracos numa das portas que me pareciam ser de balas. Achei melhor me manter silenciado e atento durante a viagem. A estrada alternava entre terra, gravilha e alcatrão. Desnecessário dizer o quão miserável o estado das mesmas.

Chegamos ao destacamento local vinte minutos depois de aterrarmos. Conseguia reconhecer só pelo som o cenário que nos esperava. O estalido metálico do som que milésimas depois se desvenda aos nossos olhos numa nuvem de destroços emaranhados num vermelho ensanguentado. Era certamente um local dantesco, edifícios destruídos e em ruínas partilhavam o seu espaço junto a estátuas ainda edificadas em granito escuro.

Entramos muito apressados num perímetro já guardado por elementos da ONU que visivelmente se encontravam em estado de alerta máximo “Parece-me que chegamos em má altura.” Dizia eu a Melinda enquanto espreitava com extrema curiosidade pela janela do veículo que corria qual atleta olímpico por entre as ruas estreitas à entrada da cidade. Já dentro do aquartelamento onde iríamos certamente fica, o ambiente contrastava com o que se ouvia no seu exterior e de onde os odores nos invadiam constantemente com sensações desagradáveis.

- Hoje poderemos descansar. Não iremos sair em missão alguma. Podes te ambientar um pouco ao local e suas gentes mais tarde quando anoitecer, mais seguro garanto-te. - disse-me Melinda assim que saímos do carro. Foi-me indicado onde ficaria alojado e decidi de imediato fazer o reconhecimento do local. Cama com lençóis brancos e duas almofadas, uma cadeira e secretária de madeira velha, uma janela em forma rectangular na vertical dividida em quatro, bem ao estilo militar e uma casa de banho com os requisitos básicos. Já havia pernoitado em lugares bem piores do que aquele por isso considerava que até me servia perfeitamente. Entretanto já junto de mim na porta de entrada estava a minha mala.

Iria sem dúvida aproveitar para descansar das horas de viagem num voo longo e turbulento. Decidi começar a desempacotar tudo o que havia trazido comigo. Roupa para as gavetas, camera e filmes para a secretária, o mini estúdio de revelação pousado no chão e o envelope… um envelope pousado sagradamente junto à minha roupa interior, sem nome, impune à destreza de ter ali sido depositado, violado apenas pela tinta de uma caneta de visível traço fino que compunha o endereço do seu destino… “Ricardo”.

Abri o envelope com receio… vagarosamente como se de um ritual se tratasse.

“Já não me conheces, cresci, dei voltas ao mundo, de mágoas cheias ás costas, e tu, não sentiste a minha falta, bati com a porta, e tu, correste a fechá-la à chave, chamei o teu nome do fundo de um poço que me ajudaste a fazer, e tu, não me ouviste, escrevi-te cartas na alma, e tu, rasgaste as folhas em branco que encontraste, pousei para descansar nos teus ramos, e tu, derrubaste a árvore, cresci, e tu, já não me conheces, fui cobaia numa magia de Amor que tomei em doses reforçadas e ganhei pernas e asas para partir, e voltar para junto de ti, mas tu não sabes, não vês que cresci por dentro, onde os teus olhos não chegam.

Respiro-te, sinto o teu cheiro em mim, relembro os momentos loucos que vivemos num paraíso longe daqui, relembro cada palavra que ecoa suavemente na minha alma, suspiro a cada movimento lembrado, sonho contigo de olhos abertos enquanto o mundo dorme, fecho os olhos a cada lembrança, para me sentir mais perto de ti, absorvo cada partícula de sonho que de mim emana, não esqueço a magia do olhar, derramo os instantes dos nossos momentos para uma pequena caixinha de seda feita, que guardo na intimidade, dentro de mim, onde ainda te sinto.”

Senti-me assustado. Não esperaria que ali, no seio de uma guerra que se faz pela eternidade, tais palavras e emoções existissem e me fossem dirigidas. Embrulhei a seda que se fazia escrita naquele papel na minha mão e saí a correr à procura de Melinda. “-Naquele edifício, a porta dos aposentos do Cabo Melinda é a que se encontra à direita.” Disse-me um soldado que nos tinha acompanhado na viagem. Entrei mesmo sem me apresentar ou pedir a permissão de entrada e ali mesmo, de frente para mim, um corpo desnudado, firme e moldado, os seios rosados e redondos e pela atmosfera fria que se sentia, rijos. Ficamos os dois a olhar um para o outro sem uma palavra ser dita. O espanto era tal que todo o meu corpo congelou, de tal forma que a carta havia já caído da minha mão e estendia-se agora no chão de cimento que se escondia por entre uma carpete azul clara. Não sabia se havia de virar costas e sair, se pedir desculpas e manter-me quieto ou se pedir por um milagre e uma bomba caísse ali mesmo aos meus pés.

(Continua...)

segunda-feira, janeiro 14, 2008

XI - A VIAGEM

A tarde fazia-se já longa. Sabia já por entre conversas com Melinda que fazia juz ao significado grego do seu nome “Mulher cortês e gentil”, que estaríamos de saída para a Jugoslávia numa missão de paz de 30 dias. Julgava-me preparado para tudo ou pensava eu que estaria, mas distintamente o ressoar do destino que me esperava por entre a minha pele trouxe-me arrepios e interrogações com medo da resposta. Algo de bom me trazia aquele mal estar perene em todo o meu corpo, não iria necessitar de cafeína para me manter acordado nas longas horas de viagem até Saraievo ou Sarajevo como lhe quisermos chamar.

Todos já ouvimos falar das praias da costa adriática da Jugoslávia, do destemido General Tito da Jugoslávia, dos comunista não-alinhados, da guerra na Bósnia lá para aquelas bandas distantes onde a Europa se perde para o Leste e daquele sérvio que resolveu assassinar o arquiduque austro-húngaro em Sarajevo causando muitos problemas à Europa dos impérios ou ainda dos ambientes apocalípticos kusturikianos, mas, ainda hoje, pouco sabemos desta Europa tão díspar. Aquela zona despedaçada, a da ex-Jugoslávia é um autêntico mosaico amalgamado de culturas fabulosas. Mesmo a Grécia que nos legou parte do que hoje somos, é uma tão grande desconhecida. Quando se fala naquele oriente, pensa-se invariavelmente — quer com o devido conhecimento, quer sem ele — num caos, numa zona ignota, ligeiramente oriental, a Europa de Leste, a remota Europa eslava.

Já no avião e acomodados juntamente com a carga operacional da Unidade BTS-4 assim designada, via-me por entre um emaranhado de rostos envoltos numa textura de tristeza e saudade dos que haviam já deixado em terra. Não duvido da capacidade destes nobres soldados que se aventuram a uma desconhecida mira de uma qualquer arma de fogo.

Melinda continuava a acompanhar-me durante a viagem. Havia já notado nela o desejo de se encontrar presente para mim, deixar-me conhecedor de todos os pormenores da missão e o que era pretendido de mim. Não era leigo algum na matéria e sabia que apesar do tom e pormenores com que se deleitava a entregar-mos, julgando talvez que nunca teria estado num terreno tão difícil como este, deixei-a continuar. O tom suave e alegre da sua voz aliviava-me o stress de voar. - “Quando aterrarmos teremos tempo para nos acomodar e socializarmos um pouco?” – interrompi eu o seu discurso contínuo e acenou-me com um sim misturado por entre um sorriso.

Foi então que decidi fechar os olhos e aproveitar as horas de viagem que se avizinhavam. Dirigi-me à mochila que me acompanhava com material ligeiro para me apoiar como almofado e reparei que estava a ser observado por Melinda. Ignorei, repousava agora num mundo diferente e tentava sonhar com mundos ainda por descobrir, o odor a ferrugem e a metais distintamente forneciam-me pistas das cores do cenário que iria trazer para o lado ocidental do mundo capturado pela lente da minha camera.

(Continua…)

domingo, janeiro 13, 2008

X - PASSO EM FRENTE

Alva pétala de rosa, na fragilidade efémera em que a poiso junto ao teu rosto e deixo meus dedos acariciar a fragilidade que me ofereces.

Levanto-me e hesito em sair. Viro-me para a porta. As lágrimas abrem estradas de sentimentos que não te escondo, conheces bem a minha dor quando nos meus braços, antes das persianas da tua vida se fecharem, sentiste a foice do inferno cravada no meu rosto, o desespero de te perder. Fecho-me em mim e remeto-me em ti. Não seria um adeus mas estranhamente sentia que o fosse.

Sinto-te sorrindo quando nossas mãos se separam, me abrem de mansinho e me lês, sabendo que um passo teria de ser dado.

Seria longo o dia. Ao sair daquela porta do Hospital Militar, um novo amanhecer se fazia sentir dentro de mim, um que me abriu de novo a alma, despertei células adormecidas em mim e senti-me de novo a viver. Chegado às instalações da ONU na cidade que se encontravam germinadas dento do quartel militar apresentei os meus documentos de identificação. Aguardavam-me certamente tal a rapidez com que me cederam o livre-passe, e indicaram-me uma porta ao fundo do corredor que levava ao edifício central.

Do fundo do corredor alguém chama-me. A fosca exígua luz que se fazia, evitava a denuncia do seu autor. Fui-me aproximando a cada passo firmado no chão brilhante, denunciante de sombras diversas onde o tema principal se fazia na guerra. Insígnias e bandeiras, fotografias de campanha de outroras batalhas designadas em secretárias bem afastadas da linha da frente. É certo que a minha presença dependia delas, serias a flor negra que se transformaria no fruto das películas por mim capturadas, momentos únicos e transcendentais à minha própria existência. Continuei a passo largo carregando o meu já antigo saco de campanha, o mesmo que carregou já em si peças de roupa de Raquel, e ainda dentro dele, religiosamente guardado, a cruz de Cristo que lhe pertencia e que trazia consigo naquele dia.

“Melinda! O que fazes por aqui?” Nada me faria crer que um dia iria rever aquela face. Melinda era a melhor amiga de Raquel. Uma mulher de tez morena com descendência marroquina e influências transmontanas, cabelos pretos e olhos verdes e com claras evidências nos traços do seu rosto das origens muculmanas. Esteve com Raquel em todas as missões e partilhamos muitos serões em conjunto nas inúmeras casernas de campanha. Estivéramos afastados desde o acidente de Raquel mas sei que a visita com frequência.

“-Estou de partida para uma nova missão e assim que soube que o fotógrafo de campanha escolhido tinhas sido tu, resolvi te receber pessoalmente.” Dizia-me ela com um sorriso espelhado no seu rosto por entre dois efusivos beijos. Fora sempre assim, uma personalidade forte e extrovertida e vincada, alguém a quem poderia recorrer a qualquer momento e talvez tenha sido isso que a juntou a Raquel que sempre foi mais delicada.

“-É agradavel ver um rosto amigo e conhecido por este emaranhado de fardas que transitam por entre os corredores.” Escusei-me claramente a mencionar o nome de Raquel, estava ali com um propósito que não o de reavivar memórias que me entorpeciam a cada amanhecer. Continuamos os dois pelos corredores a conversar sobre a missão que os aguardava, os posíveis planos de acção e perigos que eventualmente os esperavam. O telefona que recebera não havia sido claro quanto ao local que nos esperava, nem mesmo eu me preocupara com esse pormenor. Mas o maior suspense seria mesmo a forma como Melinda me recebera e o diálogo que mantinha comigo, sem mencionar sequer a sua amiga que ainda permanece no hospital. Certamente não pretende também ela abrir lugar a feridas que deverão se manter fechadas.

A caminho deste novo destino que agora se fazia por entre pedras límpidas e cristalinas que nascem a cada instante do meu âmago, brotam apaixonadas da nascente do meu ser emergindo enternecidas da minha essência, seixos preciosos que rolam ao abandono dos momentos neste leito de emoções, ao sabor da corrente do imenso rio de uma nova temporária vida, arrastado numa bela cascata de sentimentos cores e aromas que desaguam no sereno mar dos meus sonhos, e me aquietam a alma. As insígnias que Melinda transporta junto ao seu peito, são cristais transparentes que nascem disformes com arestas vivas, que se limam e perdem pedaços por onde passam, ganhando vivência, burilando a resistência, ampliando a pureza, lapidando as marcas que lhes dão mais valor à medida que o tempo passa, são jóias raras, pedras eternas e preciosas, são diamantes conquistados por entre rios de lama pisados a custo.

(Continua...)

quarta-feira, janeiro 09, 2008

IX - A DESPEDIDA

São essas pinceladas de cor nas sombras abstractas da minha imaginação, brilhos deixados num por de sol de luas onde na penumbra dos sentimentos se traçam cada pormenor teu. O telefone toca. Com um olhar crítico olho para o número que se misturam em sentimentos à mercê dos meus olhos que os fecho por breves instantes. Sei que se trata do Serviço de informação da ONU. "Boa noite!" atendo eu com uma voz cávada, rouca entre contornos e efeitos visuais de profundo desagrado. Convidam-me a integrar uma nova missão humanitária onde servirei de repórter fotográfico. Num momento de cega loucura, que o tempo jamais irá apagar aceito. Tenho consciência que estarei algum tempo fora e o sentimento de culpa apodera-se de mim. A chamada terminara. Não haviam me cedido muitos pormenores mas ainda assim são segredos abertos estes que apenas eu consigo entender.

Num instante de raiva inesperada, as minhas mãos se atiram ao abismo do meu rosto destruindo o telefone nas tinta que se metamorfosam na parede do quarto. Porque haveria eu concordado com aquele pedido e abandonara Raquel? Esta incompreensão inócua, na simples escolha entre o preto e o branco abre as portas de uma realidade que à muito escondo e temo encontrar.

Na manhã seguinte um pouco mais fresco, preparo o saco de viagem, baú do meu conhecimento em busca do desconhecido dia que me espera longe de casa, afastado da alma que me acalenta o espírito e me atormenta o coração. Uma lámina trespassa-me o corpo, sinto o sabor ferroso da sua dureza mas conheço-me melhor quando envolto em faces desconhecidas. Recolho a câmara no seu estojo com o cuidado de um guerreiro samurai na partida para o seu destino. Aquela era a minha hora.

"Amanhã, não estarei aqui à hora marcada!", sussurro eu agora sentado na cama junto de Raquel. A cor dos lábios não era mais a mesma que me trouxera mundos de fantasia e sabores adocicados. "Estarei longe deste mundo de sonhos e iusões que criei para mim. Vou partir, mas sei que não vou sozinho pois levo-te comigo, levo as minhas mãos entrelançadas na saudade do teu toque e sei que na minha boca ainda consigo saborear pedaços de ti meu amor, pedaços que me ofereceste em beijos e ousadias por onde ecoa a tua voz que me acompanha na bagagem da minha pele e onde sempre te encontrarei."

Sentia-me a desfalecer como um traidor reles que abandona o seu mestre no momento em que este mais dele necessita. Mas sei que não poderia mais ali ficar. Por muito que o negasse dentro do meu eu, um desejo de partida se fazia crescer como uma flor que brota na primavera em busca de um raio de sol para de novo aquecer a face da minha paz.

"Levo-te num abraço eterno que nós demos, numa praia onde me encontraste a brincar como uma criança, onde te sorri e adivinhei a tua chegada fazendo o tempo parar, desde a eternidade. Amanhã à mesma hora, não estarei aqui meu amor, estarei aí, contigo!"

(Continua…)

segunda-feira, janeiro 07, 2008

VIII - O TOQUE

São quatro horas da madrugada e só agora regresso a casa. Necessitava de colocar aquele estúdio em ordem. Pude finalmente terminar os trabalhos pendentes e dedicar-me às aventuras do meu dia-a-dia e encontrar novas facetas e realidades para captar na minha lente. Estava visivelmente cansado. Os olhos enrugados pelo esforço da pouca luz do laboratório obrigavam-me a usar as mãos sentindo cada pedaço da parede do quarto como se de um trilho se tratasse até ao seu tesouro, a cama que me aguardava.

Desce a madrugada e o sono não chega. Deitado mesmo com a roupa dou voltas pela cama e limito-me à ignorância da minha insónia tentando fixar na minha memória o momento em que conheci o brilho do teu olhar.

Meu corpo rende-se ao rendilhado da falésia da noite que me quer desperto. Sento-me na cama... lá fora oiço passos de nocturnos comerciantes que da noite fazem sua vida. Acendo um cigarro, a companhia dos solitários quando sentem o desespero da solidão a se aproximar. Pelo quarto vejo o fumo a transformar-se numa nuvem de cristal, brilhante pela luz do candeeiro da calçada. Fecho os olhos. Lembro-me do dia enublado em que a conheci, onde te inventei por entre as cores cinzentas de um dia que se fez em palete de arco-íris, onde te moldei nas mais belas formas e onde me deste um nome escolhido entre os teus vazios. Ainda guardo a tua foto, a primeira foto do teu rosto onde te revejo, contemplando em fugazes instantes o teu sorriso que te fez tão feliz, e recordo que em troca me deste vida com a tua magia que absorvi e ainda trago espalhada pela pele.

De novo inalo um pouco mais do meu vício que me acolhe nos momentos de transtorno, onde a realidade me separa dos desejos e a confundo com a ilusão de um reino de fantasia ou um anjo rebelde perdido nas nuvens do teu céu.

Afasto-me da cama e rumo à janela. O ar fresco da madrugada acorda as minhas feições adormecidas. Um casal de namorados descem a avenida vindos certamente de uma noite de diversão, a prostituta que se encolhe na portada de um edifício, a luz fosca que se envolve pela cidade e silêncio. Noites destas são difíceis de encontrar e ainda assim, acordado, desperto para uma realidade da qual desejo fugir, sinto o perfume das tuas palavras quando estes momentos me surgiam "-Amor, deita-te ao meu lado, deixa-me te adormecer!".

Como ainda saboreio o sopro das tuas penas que se chegavam a mim gentilmente como a brisa da manhã, inundando o quarto naquela noite de Lua cheia, testemunha calada de um sonho lindo onde apenas dentro de ti, na tua boca que me silenciava, saboreava a doçura do beijo com que me trazias o teu amor.

Recordo por entre um sorriso de menino traquina essa noite. O ténue brilho das estrelas indicava-me o caminho da janela até ti, no entanto sentia-se a chegar, de toque desprendido por entre o meu corpo nú, olvido o pudor e o desejo. O luar nos meus olhos alertavam-te para a razão desprendida de mim oferecendo-me ao querer que dita o desejo.

De nós choviam beijos molhados, mimos trocados e meiguices oferecidas, no ar espalhavam-se murmúrios que as tuas mãos procuravam na minha pele, lábios perdidos em delícias húmidas na aurora do teu prazer, pleno de luz e emoções. Momentos intensos, sem limites, deixados à mercê da rotação livre dos corpos, carícias que se faziam secretas e magias inventadas, o gemido profundo sussurrado ao ouvido, os dedos entrincheirados nas minhas costas por cada prolongar de um movimento cavado na paixão.

Nesse campo de paixão, nesse abrigo de loucura, a respiração toma o fôlego, o coração apazigua as emoções ainda gritantes de um êxtase lancinante que trespassava nossos corpos colados, inebriados, culminar do deleite que nos deixa assim quase adormecidos, ao abandono dos braços um do outro.

Tenho saudades dessas noites, saudades de ti.

(Continua...)

terça-feira, janeiro 01, 2008

VII - BAÚ SELADO

Minha alma gelou e o meu corpo acompanhou-a num acto de redenção. Das minhas mãos caía o papel feito baú de onde tais palavras feitas se espalhavam agora pelo soalho velho de madeira. Sentia-me inundado por um ensejo partilhado de beijos trocados e lábios colados, delírios, loucuras, sabia-me o gosto que pairava no ar da fusão de duas partes etéreas que se desprendia de mim. Por instantes me falavas, me tocavas e no entanto sabia que para além do tempo exíguo que cabe neste instante, transbordavam emoções por onde florescia nesse jardim a leveza das nossas almas e as essências trocavam mistérios e segredos guardados apenas na voz dos anjos e agora desvendados em surdina nas palavras que me escreviam.

A doçura do teu ser entranhado em mim profundamente na minha pele como um perfume raro e divino quebrou todas as forças que em mim ainda restavam. Caí em câmara lenta nesse momento gritante de sensações que o silêncio não guarda, dos meus olhos emanavam pequenos grãos de luz que confluem numa ténue espiral de brilhos. Fechei os olhos. A pedra calcária que se fazia crescer a cada dia em mim começava a estilhaçar. Cada palavra, cada letra, cada linha, leves carícias que agora de joelhos, olhando minhas próprias mãos, sentia o enlace do fio condutor que me levava ao passado, ao teu dia em que me foste roubada, ali, em mim deitada, de olhos abertos a suplicar-me pela eternidade que nos une ainda mais um ao outro.

Por instantes a realidade mistura-se com o passado inatingível que preferia alterar, moldar em barro com as minhas mãos a tua silhueta que muito desejava ser a que me deixara tais palavras.

Preferi sentar-me e fechar os olhos.

“-Dizes que me amas, que me queres, que me desejas, mas não me ouves, pareces não ouvir a minha voz, queres calar-me com beijos que não quero dar, os teus braços envolvem-me e eu quase fujo, quero que me oiças, quero dizer-te que te amo, que estou contigo para além do que vês, não me entendes?”

Recordava cada instante daquelas palavras com que havia chicoteado Raquel naquela manhã. Estava preparado para rumar a uma nova aventura, agora definitiva, mais pacífica e tranquila e oferecer-lhe tudo o que havia a oferecer. Não aguentava mais os momentos sôfregos da incerteza de a deixar de ver após um simples beijo matinal a cada dia que saía em missão. Discutimos nesse dia e nunca me havia perdoado por o ter feito.

-“Não acreditamos no mesmo amor? Não o sentimos da mesma forma? Vais para onde não quero ir, para onde a minha alma chora e tu não vês, são lágrimas que não molham o chão que pisas, lágrimas cortantes que matam lentamente a cada instante que não sei de ti, dia após dia, mas tu não as vês. Chama-me egoísta por te querer a são e salvo, prefiro-me assim a insensível!”

Sabia que aquelas palavras lhe feriam o coração. Sua paixão pelas causas humanitárias levara-a a cometer inúmeros sacrifícios pessoais, a ausência da família, os dias constantes de isolamento, os perigos das balas que zumbiam por entre as paredes que se faziam em ruínas num país também ele arruinado. Mas sentia que após vários anos naquele cativeiro, havia chegado a hora de também ela ser causa humanitária e usufruir de um abraço quente, de voltar a nascer longe daquele mundo que a mecanizara, derreter-se por entre o desejo quando a tocava.

Viajávamos em veículos separados, sem uma mais palavra trocada após aquela discussão. Partíamos em direcção ao contingente principal da ONU para regresso quando a poucos metros à frente, o tempo congelou numa nuvem de fumo negra que envolvia o seu jipe. Meu mundo morrera naquele instante.

Estas palavras, as cartas que me traziam palavras de esperança, de sentimentos escondidos, eram cruéis para mim e ao mesmo tempo, uma doce lembrança de um sorriso numa sangrenta batalha interior, onde a bandeira branca não será hasteada, mesmo que morrendo um pedacinho a cada dia, até ao momento que dos meus lábios bebas de novo do cálice do meu Amor.

De novo entrei no estúdio. Fechei a portada antiga (definitivamente teria de encontrar um novo espaço sem o bolor do tempo), e abri caminho por entre os negativos e cartas diversas espalhadas pelo chão como se ali estivessem perdidas no tempo “-nota mental” disse a mim mesmo, “-arranjar quem me limpe a bagunça”. Eram horas de trabalho que ali se faziam esperar. Não podia me deixar levar pelas cartas que me haviam deixado ou de novo vaguearia no tempo e perderia horas que necessitava imenso para terminar aquele trabalho.

(Continua...)