domingo, junho 01, 2008

XXXIV – UM CRIME PERFEITO

Numa orgia de cheiros e sensações, sabores que me percorrem a saliva e se perdem por entre a inquietude do ar que inspiro, quebram-se as forças qual pétala molhada em manhã orvalhada. O peso do universo cai largo no meu véu banhando-me num arrepio de doce ternura inversa à sua razão.

Caiem as pétalas por onde a minha voz viaja num vermelho rubro de paixão por onde viajo incauto na noite misteriosa e pálida do meu rosto. O meu corpo de novo estremece neste som que ondula num louco turbilhão dentro de mim. Deixo-me cair, tocar com os joelhos longamente nas lajes que se desenham por baixo de mim exalando um perfume de derrota por onde os girassóis de outrora polvilhavam ao meio-dia milhares de pólens reluzentes numa dança frenética e reluzente na minha pele em busca da tua.

Solto uma gargalhada, seguram-me a mão contemplando firmemente os meus olhos. Sussurram-me palavras enfeitiçadas como que anestesiando-me com um brilhozinho nos olhos. Sei que estou ferido, sinto o despertar da dor que me atravessa o impossível e proporciona uma autêntica odisseia dos sentidos, o despertar de novas sensações. Transcendente é uma palavra demasiado frívola para descrever algo que não tem precedentes e que me envolve numa névoa misteriosa e incompreendida de uma forma tão imprevisível.

Questiono o porquê de agora me quererem afastar de um número de probabilidades que aumentavam nitidamente em direcção à fuga do meu exílio, e de repente, o cheiro a carvão queimado, feito em brasa, olho nos olhos de quem me deu guarida e encerro os meus não sabendo o que esperar daquele momento.

Há palavras que dão vontade de mastigar, saborear a textura inocente que me entorpece os sentidos. O arrepio que se me cresce dos pés é novidade para mim. O teu rosto é a sombra que me povoa o pensamento neste instante e confesso que nunca me saíste da cabeça. Chove no meu rosto gotas de tristeza, alecrim murcho pela névoa de um inverno rigoroso. Quero acreditar que verei de novo os nenúfares dos teus olhos e a água doce do teu sorriso no qual sacio a minha sede. Cansaço, é o peso do universo que agora sinto em mim e tudo o que me acalenta este momento é o descanso desmesurado que sinto necessitar.

Um cinzento calado invade a cidade e estremeço. Desço as escadas do meu olhar e fito as mãos que se avermelham como se um balão de ar quente tivesse por ali passado e queimado a química da alma. “Ricardo!” – solto em voz trémula antecipando um calafrio que jorra da minha fonte e se faz rio na tua foz.

Ali parados num deserto de nós moscada nada poderia fazer. Num átomo de fé abro a porta do veículo e salto para o lado direito do inferno em busca de uma colina protectora. Corro, corro e corro como atleta de maratona acreditando que o céu é mais abaixo e por isso não tenho medo de cair. O meu coração está a meio da ponte, sinto o vento que sopra de norte e desce em direcção ao sul, a brisa mostra-me o caminho e sigo-a como aprendiz carente das palavras do seu mestre.

Encontro um casulo ali mesmo, um pouco mais abaixo, e olhando para trás, surpreende-me a distância percorrida. Oiço o motor a trabalhar e lá de dentro saiem três soldados que correm pelo lado esquerdo do inferno junto as paredes do purgatório. São alvos perfeitos de quem se esqueceu das flores em punho. Oiço o zumbir e o estalar das balas que se encontram com a parede e estilhaçam uma quase vida. Instintivamente levo a mão à cintura e rasgo o silêncio do meu espaço com o premir do gatilho da minha arma de segurança pessoal. O fogo saiu do cano de aço gélido por seis vezes, e um crime perfeito ganhou forma.

Seguros e ofegantes por terem de correr um longo espaço que os separava da minha silhueta, olham-me sem as palavras soltas de espaços e exclamações, descongeladas pelo calor de quem atravessara o inferno, e sinto-me graça das suas orações.

Escuto o vento sem arranhões e sei que é chegada a hora de partir em busca de quem me faz falta.

([sim estou de volta] Continua...)

quarta-feira, abril 30, 2008

A SEU TEMPO


Não é urgente chegar, o que é preciso é viver!

Há um tempo para tudo. Hoje caminho descalço e sinto o arrepio da pedra que me beija os pés e peço para que me despertem deste sono ao meu redor. Há um tempo para tudo... este é só meu e peço que me deixem ser egoísta, maltratar a minha própria alma, parti-la em dois e esconder um dos pedaços para que um dia, seja tesouro descoberto.

Continuarei a minha história que me embala o pensamento e alimenta o espírito... no seu tempo.

segunda-feira, abril 21, 2008

XXXIII - DESCOBERTAS

Perdido por entre fantasias de gestos sem pudor, como que mergulhado num olhar mágico, longínquo, oiço o rufar dos tambores do conflito que invadiu aquela cidade. Tudo se fecha nesta fresta de tempo que nos antecede o desastre, e quando abrimos os olhos agora no futuro, entregamo-nos às recordações que um dia gostávamos de não as ter.

No albergue que me fora oferecido, sentem-se as paredes a estremecer. Os bombardeamentos haviam de novo iniciado. Olho para as faces dos meus protectores, a dela que junto ao que presumo ser o companheiro, roçam-se levemente entre suaves forças e trocas de amor, promessas de almas que se amam no silêncio de um beijo trocado por entre olhares que tudo dizem e nada falam.

Há uma fórmula mágica de odores, perfumes e sabores que embriagam os sentidos naquele espaço. Aqueles dois despem os olhos que se encerram numa languidez inversa à explosão de emoções que eclodem por entre ternuras, a cabeça que pende sobre o pescoço e certezas que estarão juntos mesmo que atravessando uma nascente turva.

Por momentos o tempo encontrou ponteiros ensonados, nada mais naqueles rostos fazia sentido à excepção do doce e borbulhante serpentear de sensações que lhes percorria o corpo, o frio na barriga quando se beija pela primeira vez, a tremencia disfarçada das mãos dormentes que desenham no ar as formas de um amor simples e sincero. O mundo ajoelhava-se ao seu mestre, podia sentir a essência daqueles dois, a sintonia do seu sentir, a magia de um amor em guerra, perdidos dentro de lembranças que o tempo não apagou da pele... sinto-me como se pelas margens de um rio descesse montado no pulsar selvagem de um coração que suspira, um privilégio assistir pelo avesso às carícias mascaradas de desafio, e eu ali, ausente nos dedos da minha câmara.

Suspiro... no corpo ausente de mim que reconheço cansado, encontro naquele momento a curva ascendente das minhas próprias emoções e perturbações. Branco como as paredes que me acolhem cerro os lábios e olhos pesados com que eu próprio me olho do alto dos meus desejos e encontro as duas mulheres que agora pertencem às páginas do meu pequeno mundo. Apenas uma contém o beijo que se esconde por entre as palmas das minhas mãos e que anseio em descobrir como um tesouro encantado, o toque longe do tempo que me enleia.

Ao olhar por entre as grades daquele espaço onde outrora um vidro separava a vida lá fora, ganho asas de vagabundo sem rumo e deixo que me perca em sensações que vejo derramadas em cascata sobre a minha pele nua de mim. Imagino e quase consigo sentir na boca o doce mel que a tua língua inventa quando toca a minha, e ris-te porque sentes o que eu sinto, a pressa em te beijar, o desejo que desfaz as malas do passado e percorre noites longas de insónia, sabes-me a sussurrar-te partes de mim que conheces e outras que descobres. O sangue pulsa nas veias, entrega-se ao espaço deixado na ternura, o corpo exausto do prazer que não teve, responde à alma e os olhos abrem-se com a imagem da terra prometida por onde a saudade e o sorriso renasce no rosto da que amo, a lembrança viva do que eu sou e quero para mim.

No ar repentinamente desvanece a música dos murmúrios loucos, a realidade adormecida acorda-me lentamente como um sopro sentido por entre o pescoço. Olho de novo o casal que me abrigara e o olhar que ainda há pouco se inundara de um amor imenso, fita-me assustado. Não percebo e sua razão, e assim fiquei por instantes me passam como horas por entre dedos finos, e tento, tento soltar palavras de sossego e nada me sai... olho as minhas mãos e um céu cinzento se desenha por entre o rubro vermelho que nelas cai como ondas que se esbatem na quilha de um navio à deriva. Sinto a brisa quente do meu sangue que cai como rosa cansada. Não percebo, a confusão instala-se aos meus olhos e pergunto-me qual a parte desfalcada do meu corpo que havia sido desfolhada com uma qualquer bala perdida...

(Continua...)

quarta-feira, abril 16, 2008

XXXII - A PROCURA

Aquilo que sinto é a razão que me faz lutar e me faz querer chegar além e sempre mais do que esse além. A minha fonte de inspiração transformou-se agora, as palavras que morrem ao cair no papel não são mais do que meras sensações que a alma agora grita com um basta a uma vida de momentos e amores fugazes de instantes que deslizam por entre os dedos nesta realidade assustadoramente má. Pensei que ia continuar esta vida tal como era antes de entrares na minha vida, mas hoje compreendo que apesar das razões com que nos cruzamos, apesar do passivo que a tua vida carrega, apareceste como a brisa que vem para a tarde quente de verão, por laços reais que não vemos e sinceramente não sei mais o caminho que vou seguir a não ser aquele em que tu estás presente.

Soam os alarmes de saída do pelotão, apresso-me para a caravana que sai em busca e auxílio das populações mas és tu a razão pela qual as faces destes soldados se vestem de guerreiros. Entro no veículo e instintivamente fecho os olhos. Solto uma prece de fé, um pedido, um desejo que tudo volte a ser como era, contigo ao meu lado. O silêncio é rainha porque o rei é ausente. A caminho das portas da cidade tudo o que encontro é o desespero e destruição, caravanas da cruz vermelha a socorrer feridos e a esconder os mortos. “Meu Deus!” saíram-me estas palavras sem mesmo as pensar. As atrocidades que ali jaziam naquelas estradas eram por demais horrorosas, crianças perdidas, feridas, corpos irreconhecíveis ao ser que se diz humano, o cheiro intenso, uma mescla de odores de ódio queimado materializado em objectos desmembrados que não me atrevo a reconhecer como corpos, caso o fizesse o meu estômago não aguentaria. Esta frieza que reconheço em mim é agora bem vinda.

Escondo-me na saudade, na falta que sinto na tua ausência e penso como será possível alguém entrar na vida de outro assim tão repentinamente com uma paixão incontrolável, oferecendo sonhos que imaginei para uma vida inteira e sentir que tudo isso é recíproco. Eu queria voltar atrás só para ficar contigo, mas quero me apressar neste presente para alcançar o futuro onde te resgatarei do alheio e apresso-me a dizer, oferecer-te a minha vontade de ser o que ambos quisermos, mesmo que isso signifique ausentar-me do perigo.

O inferno era já ali à frente. A caravana pára e os estrategas reunem-se, iremos nos dividir em grupos e penetrar na cidade como estranhos num casamento, cuidadosamente e alienados, tomando o pulso às ruas e às vozes que saem das armas que cospem fogo e balas perdidas. Ardo em arrepios que me consomem a pele e adivinho a loucura que se aproxima sem ninguém me ter contado o desarrumado que visitamos.

Os grupos dividem-se e o meu leva o rumo do sudeste da cidade, escuto o ritmo continuado do vaivém das poderosas armas, este conflito dura já à tempo demais e perco-me na tentativa de compreender a razão do mesmo e os porquês que se diluiram já com o tempo passado. Admiro no entanto aquelas gentes que dali fizeram os seus lares e se recusam a procurar o abrigo do sossego. São pessoas como outras quaisquer, mas nos seus rostos vemos os traços da resistência, a persistência, não consigo encontrar a linha da derrota e habituaram-se a fazer daqueles dias uma normalidade estranha. Parecem-me hipnotizados. Assim como aparecem, desaparecem, vultos invisíveis que se escondem por entre as paredes esventradas, a sensação é estranha, como se no seio de uma selva todos os animais fizessem silêncio, ficando à escuta do perigo que se aproxima.

O medo invade-me pela ponta dos pés e a adrenalina desperta-me os sentidos. Sei que estamos em perigo mas não o encontro em lado algum. Avançamos lentamente pelas avenidas, apesar de blindados, os veículos são isco fácil num mar de tubarões. Ninguém se atreve a sair, marchamos passo a passo em linha recta tal como o jogo de criança “siga o líder”. E então tal como um presente envenenado, rasga-se o silêncio e somos alvo dos atiradores furtivos apesar de estar-mos perfeitamente identificados como elementos em missão de paz. Institivamente agacho-me, oiço o zumbido das balas que encontram na massa blindada das portas o seu repouso final. É arrepiante saber que tudo o que nos separa são centimetros de aço, e pensamos por breves instantes na fatalidade que pode acontecer. O condutor acelera, não pode permitir aquele chuveiro contínuo a cair sobre nós. Passamos a estar dentro de uma qualquer misturadora de sumos tais sãos os abanões com que nos deparamos nas curvas apertadas que o condutor desenha com o volante do veículo. O operador de rádio reporta a nossa localização numa voz arrepiada e apressada. As suas indicações não são claras mas percebe-se que rumamos a norte, agora para sudoeste numa rua apertada e sem saída. A travagem repentina atira-me para cima de um colega soldado. O veículo recua e estamos claramente encurralados dentro daquelas portas. O condutor procura a toda a pressa um abrigo, um local onde possa parar fora do alvo das miras telescópicas dos atiradores furtivos.

Pelo rádio ouvem-se relatos idênticos, o desastre é geral e todos procuram abrigo, a vontade de ali ficar evapora-se a cada segundo que passa mas não desistirei de procurar Ricardo.

(Continua...

quinta-feira, abril 03, 2008

XXXI - DESMASCARADO

O dia levanta-se fresco e harmoniosamente quente. O sol já cumpre o seu papel e abarca o pensamento de um novo dia, novos desafios, sensações, um novo convívio com os traços, paletes de cores e emoções que deslizam por entre um rio quente de almas inquietas dos seus criadores. Eram já dez horas da manhã e a galeria teria de ser aberta. Apressei-me no café da manhã e pousei o jornal diário que me despertou com uma notícia de uma exposição na Fundação de Serralves alusiva à violência institucional e poética. Saí a correr daquele local que nem me atrevo de chamar de “Café”, era mais um símbolo tradicional da cidade de uma cultura local bastante fincada num trajecto bairrista daquela população, por entre os seus frequentadores carinhosamente apadrinhada de “tasca”.

Há dias assim, em que correndo passeio fora nos apercebemos da velocidade rara e dimensão inventada das nossas vidas. Olho para o lado e tudo gira a uma velocidade infernal, abstenho-me de pensar. Para piorar a sensação era o meu aniversário e por isso esperava já o impulso da alma que me fechava a porta a um velho ano. Pela primeira vez iria comemorar sozinho, sem amante ou confidente, o melhor amigo em viagem novamente. “Que espaço é este onde me mantenho fechado em troca da minha liberdade?”, pensava eu enquanto abria as portas da galeria.

Novamente o ritual, a forma encontrada pelo meu ser em apreciar e descobrir algo de novo nos quadros expostos, nos momentos únicos capturados através de uma lente, as faces ruborizadas a preto e branco onde na dúvida se evidenciam ao olhar de um fotografo indiscreto. Gosto particularmente do trabalho do Ricardo. Sempre que revejo as suas fotografias, oiço, vejo, sinto, mas não estou lá, choca propositadamente com o tradicional, contorna o arrojado indiferente como a chuva que nos molha e ensopa a alma. Não é muito apreciado porque nem todos sabem-lhe reconhecer os afectos que o preenchem e a crepitação da alma que devora tudo aquilo que sente até ao limite. É um explorador nato dos sentimentos alheios.

Não recebia notícias dele desde que se havia ausentado à alguns dias e curiosamente no dia em que partiu havia recebido um telefonema mesmo antes de fechar a galeria, solicitando para reservar o seu trabalho que estaria exposto, principalmente uma foto, um auto retrato. Estava nessa altura no seu auge emocional, a carreira deslizava como uma faca por entre manteiga derretida, havia encontrado uma mulher com quem partilhar os seus dias, e como tal, decidiu revelar um pouco a máscara por detrás da lente da sua Canon. O estranho ainda no entanto era alguém querer comprar o seu trabalho, como tinha já tido a oportunidade de lhe referir. Voltei para a o meu canto da sala, o brilho do dia iluminava já a entrada, os raios de sol formavam um curioso arco vindo das grades superiores da fachada dando um ar um pouco imperial ao espaço.

A porta abre-se e de lá surge um vulto feminino, proeminente nas suas formas majestosas e possessivas de olhares alheios. Trajava um longo vestido preto com frinjas verticais branqueadas, uma autêntica fotografia de cartaz. Os passos eram dados com convicção, cabelos longos, bem abaixo dos ombros e doirados, chapéu branco de abas largas e uma pequena mala debaixo do seu braço direito. Aquele figura parecia ser uma personagem de hollywood, uma celebridade. Aproximou-se e perguntou pelo director da galeria – “Fala com ele mesmo, João de Bettencourt ao seu dispor!” – exclamei eu numa pose tradicional e com textos pensados ao pormenor. Alguém que dedicara o seu tempo de manha a se preparar daquela forma, era sem dúvida merecedora de palavras cuidadas e atenciosas.

- “Muito prazer, conforme falamos telefonicamente, venho resgatar o trabalho fotográfico de Ricardo Torres e estou preparada para ser generosa na sua aquisição”.

Não sabia se havia de ficar perplexo com aquelas palavras ou a evidente frontalidade daquela mulher que ali estava à minha frente. Pela forma como aquele discurso fluiu, é certamente alguém que está habituada a conseguir o que pretende. Assim sendo optei por a levar para junto do espaço onde as fotografias do Ricardo estavam expostas, necessitava de explorar um pouco mais sobre quem esta mulher seria e o porquê do seu interesse naquele trabalho. A minha curiosidade era maior que o acto comercial em si.

Dentro das vozes que me atormentam o espírito e desassossegam os encontros neste mundo de rumores, oiço boatos, cantilenas de cenários sangrentos na cidade que me toma o fruto do meu desejo. São essas lengalengas que giram cegas que me levam apressada até à praça como um incauto ouvinte. Aliado da verdade é o silêncio da sua voz que me governa os sentires dentro e fora de mim. Vivia agora uma anarquia de ideias que me tomavam a destreza e a serenidade. Sentia-me prostituta do tempo, vendia-me ao segundo que passa descompassado em troca de um enigma desvendado. Ali junto a um dos veículos, o comandante, os preparativos haviam sido ultimados e esta missão de auxílio e paz havia agora também se transformado numa missão de busca e salvamento. Lá fora, centenas de pessoas percorriam as estradas num êxodo total da cidade, e nós quase de saída para a entrada triunfal no inferno de Sarajevo.

(Continua...)

segunda-feira, março 31, 2008

XXX - SOZINHO

Indiferente ao rumo dos dias e das noites daquela cidade, o mundo gira no seu eixo trazendo aos seus habitantes a naturalidade de um novo amanhecer. A azáfama natural da corrida das grandes cidades, o trânsito, as pessoas que se amontoam junto ao vermelho das suas vidas que as separam de uma margem para a outra das intermináveis avenidas das intermináveis cidades.

Longe dos perigos de guerra, tomam-se por certo, cafés matinais entre um croissante e uma ocasional conversa, o jornal que se desfolha e por onde se lêem notícias sobre a economia nacional, o futebol do fim-de-semana e longe dali, como se de outro planeta se tratasse, uma suposta guerra numa outra cidade do continente europeu do leste, um "espaço continuum" de uma história a que já todos se habituaram a ouvir.

Ainda não havia sido divulgada a notícia do ataque à cidade, não se sabendo assim dessa forma do perigo em que o contingente português estaria envolvido.

Um dia normal como tantos outros não fosse o facto da fraqueza começar a tomar conta do meu corpo. O silêncio reina ali por entre os corredores à já alguns minutos. Não sei se me haviam deixado sozinho ou se tal como eu, estariam a recuperar um pouco das limitadas forças do corpo humano. Olho em frente do meu esconderijo feito de um canto de sombras que fez naquele quarto onde estava, a porta mantém-se semi-aberta. Certeza teria que não estava fechada nem a ser vigiada, ou pelo menos, julgava eu.

Arrastei-me sorrateiramente, qual leão por entre a savana em busca da sua presa, para junto da porta. Julgo que deveria ter alguma costela partida fruto dos avanços marginais dos meus raptores, sentia dores ao respirar, mas acima de qualquer dor estava o meu desejo em voltar, era o regresso que se fazia presente na minha mente e sentia-lhe o odor a invadir-me a pele. Estiquei a mão e muito devagar fui abrindo ainda mais aquela porta. Não sabia se aquela madeira seca e áspera ao toque, iria fazer qualquer ruído ao ser deslizada nas suas dobradiças daquela forma, lenta. Apostei ainda mais numa cartada única aquela minha tentativa, por isso continuei e à medida que fui abrindo o objecto que me separava daquele corredor, fui espreitando medida a medida, um espião do ocidente que procura sombras, vozes, vultos vivos e que se mexem, mas tudo o que encontrei foi o silêncio, espaços vazios, cortinas que dançam ao sabor do vento que entra por entre as janelas de vidros partidos, pedaços de pedra e gesso que descansam em paz pelo chão dos corredores.

Reúno as poucas forças que tenho e levanto-me da minha posição de segurança, encosto-me a uma das paredes daquele corredor e lentamente caminho rumo à saída. Olho para cada centímetro daquele espaço, as ombreiras das novas divisões que se aproximam e aguardo que dali saia o carrasco que me levará de novo à agonia das sombras. Silêncio. Parecia que agora toda a cidade havia conspirado contra mim, ouvia a minha respiração difícil. Um quarto ainda com uma cama de casal, apenas dela restava a armação de ferro enferrujado, uma divisão vazia do que outrora havia acomodado agora com cartuchos vazios de balas, sala a sala, divisão a divisão ia galgando aquele espaço a medo mas sem o demonstrar na face que se revestia de herói. Estava incrédulo por ainda não ter sido descobertos os meus passos. A porta, o degrau final que me separava das mãos de quem não queria o meu bem de uma cidade desconhecida e onde os seus perigo seriam iguais ou ainda maiores, e de repente... a maçaneta começa a girar, a transpiração que me escorre do rosto sabe-me a medo, olho em volta em busca de um espaço onde possa me esconder, tudo se faz longe para um corpo que se arrasta, viro-me sabendo ter sido descoberto e aguardo que o destino seja justo e rápido, um vulto se aproxima e a cidade continua em silêncio. Nesse instante, trémulo como se tivesse sido abandonado num fiorde polar, sinto-me a ser acolhido por uma manta que se atirou por cima das minhas costas, umas mãos que me tocam lentamente. Esse sentimento de solidão esvaziava-se por entre a compaixão de alguém que me acolhia naquele palco sem actores, pois esses decidem o rumo de uma história, e esta, fazia-se sem que pudesse escolher os capítulos que a compõem.

Olho por entre os ombros tentando descobrir a quem aquelas mãos pertenciam, e por entre um olhar de tristeza queimado pelo tempo e um sorriso de quem admirada estava por me ver ainda com vida, a moça que havia me limpo o rosto ali estava de novo, firme, e como era bom ver um rosto com sentimentos de novo. Tomou um dos meus braços e fez sinal para a porta. Não sabia ainda o que havia acontecido aos outros mas decidi que fosse o que acontecesse daquela porta para o outro lado, apenas poderia ser para o melhor. Seguimos cuidadosamente, a porta abriu-se e pisamos terra incerta rumo a um destino que novamente desconhecia por completo. Seguimos rua abaixo até ao primeiro beco por entre os prédios desfigurados. Aos poucos vindos do nada vislumbrava olhares por entre as frestas do tempo de janelas e portas, vidas que ainda se fazem e se comemoram mas sempre por entre o medo e a curiosidade que os fazia manterem-se longe de mim, um estranho numa cidade de estranhos.

Paramos junto de uma porta de madeira de carvalho, forte, sentia-lhe a dureza no rosto enquanto permanecia encostado a ela para descansar. Abriu-se e quase que caía não fossem os reflexos rápidos da moça que me ajudava. De alguma forma e por algum motivo havia sido abandonado pelos guerrilheiros e poupado pelos mesmos. Estava agora nas mãos de alguém que sentira pena de mim, sim, esse era o sentimento correcto, pena, pois não o fosse e ninguém correria o risco de me resgatar daquele local sabendo que poderia também ser fruto num cesto de terror e morte. Deitou-me num colchão improvisado de cama, para mim naquele instante bem mais confortável do que qualquer cama de um hotel de cinco estrelas. Oiço-a a falar com alguém e a agitação a tomar-se daquele lugar. Por entre murmúrios consigo ouvir claramente a palavra “portuguese” e “reporter”. Ali falava-se inglês mas o conforto e o deleite daquelas molas nas minhas costas tiveram o efeito contrário à decisão da minha fuga e fechei os olhos na esperança que pudesse adormecer um pouco e repor o meu sossego.

Há momentos em que a paz ganha forma e volume e atrevo-me a ser o reflexo do “eu” ás avessas saciando o caos que me queima. Foi de palavras em punho que me lancei rumo a este céu, o ultimo dos limites dos sonhadores. Na bagagem de muitos sonhos, tantos sonhos que nem eu próprio conheço o rosto de todos, nem sei sequer se os mesmos existem, é nessa magia que me revejo na magia das palavras proferidas junto de um rosto, esse sim claro como o sol da manhã e oiço o doce esvoaçar de anjos que me acariciaram os lábios e serenaram o meu olhar. Mas que me adianta saber-te sentir se perto de mim tudo o que resta não loucuras exageradas e fantasias que de nada me servem...

(Continua...)

sexta-feira, março 28, 2008

XXIX - A CULPA

Não sei se dou um passo em direcção à porta, não sei se tropeço nos degraus dos dias ou se apenas vivo assim colada à sombra do chão fértil das incompreensões das minhas sensações e medos.

Sinto o relento da madrugada que se aproxima, enxugo a chuva nocturna de lágrimas que solto por entre uma gargalhada oca e demente, arrancada com as unhas ao amanhecer passado. São leitos calmos de rios por entre marés tristes que ganham asas nesse mar de angústia no qual me sinto perdida.

Não permito ao pensamento discernir onde se acabam as margens lamacentas do meu egoísmo que concedi para ancorar sorrisos. Deixo-me afogar no esquecimento de outros que me são queridos, aprofundo o desencontro do corpo e da alma, separados na dor, como a noite se afasta da quebra de luz da aurora.

Levanto-me e aproximo-me do espelho do quarto. No semblante límpido do espelho das emoções, vislumbro o vazio de mim fechado no vazio de um turbilhão confuso que se abre aos meus olhos. Revejo-me no reflexo convexo da dolorosa ausência de forças capazes de amar. Perdi o corpo na ilusória batalha de mim mesma com o sonho, quando desertei do conflito antecipado, sem autorização da vida.

Foi o precipício sem fundo que ganhei, que agora sofro, nesta guerra que pintei de vermelho escuro, o sangue seco, com que tingi o branco da bandeira desfraldada, em honra do choro que me roubou a alma. Entreguei-me ao vento cigano e arrasto-me por aí entre pedra e plumas. Hoje perco-me do tempo, escorrego entre a apatia distante de um segundo e o outro. Não encontro o espaço do minuto seguinte porque não ouso estender a mão ao futuro. Temo este futuro.

Perigosamente desafio-me, iço as velas do sofrimento, pulo o inglório muro da lógica, golpeio a consciência e adormeço a ilusão agarrada à escuridão de uma pérfida ignorância auto-imposta. Desculpo a revolta que fiz nascer em mim e aponto o dedo acusador na minha direcção pela pressa insaciada de viver sonhos perfeitos, fui eu que implodi os ponteiros que me ajustavam ao relógio da vida, deixei que a letra desta musica pela qual tanto ansiava já num tempo passado numa ilusão achada como impossível, me cegasse... sou culpada de crime hediondo.

Esta centelha de fios de luz que se estendem ao infinito leva-me embalada e sinto-me arrepiar ao roçar da lembrança das minhas mãos nas tuas. Sinto-me culpada por estares longe de mim, em perigo.

(Continua...)

quarta-feira, março 26, 2008

XXVIII - SILHUETAS

Às escuras vejo a vida como se de uma tela de cinema se tratasse, vi o princípio e receio em saber o fim. Improviso, sem falhas, não sei se pertenço ao enredo, mas procuro os meus documentos, algo que me identifique como jornalista. Os meus movimentos assustam o argumentista deste diálogo de mudos. Agarra-me, empurra-me, tremo, procuro desesperadamente um espaço de sombras onde me abrigar da violência, grito com a minha voz junto ao meu ouvido “-Jornalista... jornalista!!!”. Talvez tenha sido a semelhança sonora da palavra com a sua homóloga inglesa que tenha feito o meu medo cessar os seus ataques, talvez tenha sido a porta que se abriu e neste espaço virgem que não existe, fico recostado num tempo que não conta em parte alguma e observo à distância uma proeminente figura que se mantém na sombra e articula palavras que desconheço. Os dois voltam-se e saiem deixando-me na vontade de uma fuga, um mergulho inesperado para um oceano que gira numa tempestade mas com maiores probablidades de secar as gotas que me escorrem pelo rosto.

Por instantes misturo-me na envolvência deste silêncio escolhido, entre vozes que me circundam e beijos que recordo.

É de olhos postos nesta fresta de tempo que nos antecede, que abrimos os olhos, e nos entregamos à vontade e doce magia que brota de dentro e nos extasia as forças que dormentes, de novo acordam.

Oiço novos passos, um serpentear de uma areia movediça que se atravessa pelo corredor trazendo a serpente até mim. Com alguma dificuldade em abrir os olhos pela luz que invade o espaço onde me quedo, presencio o entrar de alguém, cigarro na boca, sinto-lhe o odor bem característico e familiar. Gosto do prazer de fumar pela ideia louca que me serve os pensamentos e me oferece novas ideias. Instantes passaram e nenhum movimento ainda foi feito por aquela figura que ali se mantém inerte junto à porta. Inesperadamente as sombras ficam claras como o raiar do dia, sinto que o perigo naquele instante não se fazia, algo mais esta personagem pretendia de mim. A força dos punhos contrastava claramente com a força da estratégia e uma diplomacia unilateral.

“ – American reporter?” – questionou-me por entre um travo no seu cigarro. Fiquei renitente na resposta... “ – Portuguese in a Peace Mission!” – ouviu a minha resposta e ali ficou a mirar-me como um falcão para a sua presa. Fiquei na dúvida se esta mulher que ali estava teria sido a mesma que me havia refrescado a face.

Voltou a sair deixando atrás de si a porta aberta. Conseguia distintamente ouvir os passos que se afastavam sucessivamente. Fiquei um pouco incrédulo e hesitante. A saída ficava ali ao fundo desse corredor e deixar-me assim seria um convite para uma fuga, ou seria isso talvez que esperassem dando-me um destino ainda mais cruel para me anunciarem como espião ou mandatário do inferno, pormenores que agora não me eram importantes, mas cuja fatalidade poderia ser evidente. Cresce em mim uma batalha interior entre o medo e a loucura desmedida. Tento a fuga e consigo a mesma, e o evento seguinte? Não tento a fuga e espero por uma oportunidade mais segura ou que me resgatem. E quais as possibilidades de tal acontecer estando porém face a uma que agora se mostra tão real quanto as balas que oiço lá fora!!??

Vou tentar...

Afloro entre a rebeldia escondida, olho o final de tarde que se avizinha e deixo um bilhete, um recado, um sorriso enigmático ao rasto avermelhado do sol que me aquece o rosto. “Espero-te encontrar em breve...” solto num murmúrio de entrelinhas que o corpo me dita em cada inspiração diferente.

Solto os cabelos e disfarço-me de outra, atirando para os pés os pensamentos e os sentimentos. Não me seduzes, permaneço imóvel mesmo quando surges nos meus pensamentos, apenas fito a porta que quero entreaberta para mais rápida sair em tua busca, retirar-te da escuridão e adivinhar os enigmas em que te destapo.

Olho de novo lá fora o tempo que escurece, vestida de ti, sento-me sobre o tempo, dá-me um sinal de ti...

(Continua...)

segunda-feira, março 24, 2008

XXVII - EMOÇÕES


Sinto um cansaço extra por todo o meu corpo. Sento-me por breves instantes e olho o céu do fim da tarde, resguardo-me nos pensamentos que guardo entre o coração e os joelhos. Não me imaginava neste querer incontido e louco, sofrega e sedenta dentro da minha pele pelo homem de alguém com quem já partilhei o quarto de camarata. O meu corpo transpira agora num misto de desejo e de medo que apenas se irá saciar na hora das grandes decisões.

Raquel é a minha melhor amiga, porém, mesmo não estando com ela muitas vezes desde que aconteceu o seu acidente. Por muito que não queira pensar nisso, sempre senti que o que acontecera a ela, a mim se devia em muito. A relação dela com Ricardo estava agitada antes dessa missão. Há muito que ele insistia com Raquel para que as suas missões chegassem a um fim, pelo menos no campo de “batalha” e passassem a ser mais diplomáticas, naturalmente um trabalho de secretária e encontros de protocolo.

Oito dias antes da saída encontramo-nos num café pelos lados de Belém. Falava-me que queria tentar tudo naquela relação, que Ricardo estaria em vias de a deixar. Ela compreendia as razões dele sabendo que suas vidas teriam de encontrar um ponto comum de estabilidade para assim continuarem em conjunto, mas com ela em constante perigo nas missões em que participava, era motivo mais do que suficiente para esse ponto comum deixar de existir pela enorme pressão que exercia.

Disse-lhe que não poderia ser dessa forma e que não deveria deixar os medos dele interferir na sua vida pessoal e muito menos no que ela fazia. Sei que estava a ser egoista, querendo apenas ter a minha amiga comigo. Sei que hoje pago esse preço na mesma moeda que ela pagou, agora no papel inverso ao seu.

As vozes silenciam-se e tudo o que agora oiço, gritos desesperados que ecoam por entre os becos da cidade, balas que arrancam pedaços do cimento que outrora sustentou edifícios, luzes que ecoam por entre as grades da janela, clarões laranja que desbravam a paisagem.

O Sol desce numa luz ténue deixando atrás de si esse rasto avermelhado relembrando-me as linhas que me sossegam o espírito naquele instante. Há treze tempos atrás, deitado junto de Melinda, a Lua prometia o brilho no céu e as nuvens estendiam-se como um tapete para os sonhos. Estava demasiado fraco para tentar fosse o que fosse por isso aconcheguei as pernas, fechei a janelas das conversas e corri as cortinas sem rosto e parti rumo a um mundo que conhecera de olhos vendados, indo ao encontro do encanto e da loucura. Para lá desta tela, oiço novamente passos, a porta que se abriu, um silêncio que pairou, uma espera que perdura em vezes sem conta, e eu, fugindo aos impulsos dos meus receios, soltando tremores disfarçados de bravura, inventei a serenidade nas minhas mãos e aguardei a decisão do meu carrasco que ali, parado, aguardando o convite para me apontar a sua arma.

Lembro, relembro, recordo e espero os próximos momentos que me trazem um sabor amargo na antecipação de também eu figurar numa fotografia.

(Continua...)

sábado, março 22, 2008

XXVI - ARCO-ÍRIS

Chegada ao aquartelamento de Gorazde os blindados do batalhão estavam já ao longo da estrada junto às instalações em manobras de preparação para a sua saída em direcção à cidade de Sarajevo. Na praça, soldados feridos que haviam sido apanhados desprevenidos ora no fogo cruzado ou nas minas anti pessoal PMA-3, eram evacuados por helicóptero para Roma, em Itália. Salto do jipe como gazela ferida e corro em direcção à sala de briefing do Quartel General. Estavam já todos reunidos e a discutir os preparativos de auxílio à população que ali se encontrava encurralada. Ajuda havia já sido solicitada a Vitkovici e a Ustipraca onde se encontravam destacadas outras unidades em missão de paz.

Encostei-me na parede fria junto a porta, com mãos de veludo afasto os cabelos que caiem derrotados por entre o meu rosto entristecido. Oiço-os ao longe a debater o caminho a tomar, as unidades que seguem, e tudo aquilo parece-me um sonho do qual sei mais uma vez irei acordar.

“-Cabo, o que faz aqui?” – Aquelas palavras eram-me dirigidas de uma forma ríspida e certa como uma baioneta antiga que se cruza com o seu inimigo em pleno campo de batalha “-Comandante, temos duas baixas numa emboscada junto a cidade, uma das quais presumo ser o nosso fotógrafo de campanha que estará raptado.” – a rapidez com que explodi naquelas palavras deixou o comandante de campanha surpreendido comigo. O seu olhar cruzava-se com o meu cabisbaixo e derrotado pelo carrossel de emoções em que havia já se passeado. “-Cabo, recomponha-se, refresque-se e iremos em busca do nosso soldado perdido. Não deixamos ninguém para trás.” – a linha suave com que havia sido cozida aquelas palavras rebentara nos meus olhos, agora lacrimejantes, como carícias de saudade para ti, gotas que sulcam o vale do meu peito abrigado numa espécie de dor.

Retiro-me para os meus aposentos em passo acelerado “-Cabo! Saímos em trinta minutos e conto consigo!”. Parada no corredor, esboço um olhar por cima do ombro e aceno com a face por entre um sorriso rasgado por um agradecimento. Não sei o porquê deste pedido, mas julgo que o Comandante havia compreendido a importância desse tal soldado perdido. Era um homem sábio, sóbrio de pensamento e justo nos seus actos e palavras. Servia junto dele à já oito anos tendo cumprido seis missões similares a esta. Não queria pensar que havia de ser já transparente para ele, mas por agora, apenas Ricardo ocupava o meu pensamento.

Regressada ao meu quarto, dispo a roupa com a pressa de uma amante e deixo cair sobre mim a mão pesada da àgua quente nos meus ombros. O sabor do vapor que me envolve como braços longos que correm ao meu encontro por onde escorrem carícias e delícias a que chamo de beijos. Suspiro, choro, cai-me a alma num profundo lago de lágrimas que desabafa do meu peito. Caminho as mãos por entre os vales que fazem sombra e apraz o corpo em desejo, caminho as mãos pelas planícies e olho-me no reflexo, ali, em brilho de ansia, o destino desliza, já não há palavras que me embalem. A chuva quente que por mim escorre é tão apenas um sorriso cúmplice que de olhos fechados trocamos e selamos com um ultimo murmúrio em uníssono. É o silêncio das nossas bocas que detem a beleza de todas as palavras por dizer.

Sonhei um sonho desenhado na contracapa do céu, vi rascunhos e folhas soltas perdidas na leveza das nuvens que cobriram de fantasias o meu sorriso. Entreguei-me nua às tuas palavras, fiz Amor com elas, rebolei-me nas prosas inacabadas e fintei as horas em que a saudade me roubava o sabor da tua pele, nos momentos que descansavas ali junto de mim.

À mercê da brisa que levou o tempo do teu verbo, invento frases sem sentido, deito-me com adjectivos nocturnos nesta cama vazia de gramática amarrotada. Sei que contigo beijei metáforas que suspiraram docemente aprisionadas por entre os meus dedos enquanto me masturbavas em linhas e parágrafos de loucuras impensadas que voaram, desapareceram por aí, não me deixando sentir-lhes o aroma que me consola o espírito.

No peito ainda salta a emoção, o desejo de virar a página e ler uma outra passagem, talvez uma rima, um silêncio, um carinho, ou apenas o momento de te reencontrar e de novo te beijar.

Com a alma em alvoroço, aquieto em vão o desalinho que dança e rodopia no meu pensamento, enxaguo a água que escorre por mim e visto-me de cara lavada e corpo fresco para sair em busca deste sonho de insana paixão, o meu arco-íris que sei, sinto, ainda respirar...

(Continua...)

XXV - AUSÊNCIA

O ruído é ensurdecedor. Este é o meu pequeno mundo de horror. No chão de pernas cruzadas, como que a ouvir uma história contada por um avô ansioso por brilhar aos seus netos, olhar de criança calada de vamos ver no que vai dar não sabendo ela como a história iria terminar ou a influência que a mesma iria ter no seu futuro, ali figurava eu, passivo, enublado, acorrentado a tremores sempre ouvia passos na minha direcção do lado de fora da porta daquele minusculo quarto. A guerrilha sem dúvida tomara a cidade de assalto. Poucas vezes vira a guerra como sendo actor principal num palco como este. O conflito sempre o vira nos papeis e nas fotografias, nunca havia-me borrado de pó ou de lama nem estado prisioneiro. O desconforto do chão de cimento, duro como aquela realidade não me deixava delirar por momentos passados.

Oiço passos de novo... calo os pensamentos. Nada me garante o ar que venha a inspirar momentos depois. A porta abre-se. Levanto a face como que encarando o meu carrasco. Uma moça claramente de traços muçulmano, carregada de pó nos seus cabelos pretos, carrega uma bacia de agua e um pano. Ao fundo do corredor que se encontra com outra qualquer divisão que desconheço, oiço vozes exaltadas, gestos rápidos de armas que discutem umas com outras. Julgo que serei eu o motivo daquela discussão.

“-American?” perguntou-me a moça enquanto levava o pano ao recipiente com água e de lá o tirou para em seguida o encostar à minha face ensanguentada onde jazia um corte profundo. Acenei com um não, a dor aguda que se fez sentir por breves instantes retirou-me qualquer capacidade de vocalizar um qualquer som ou grunhido. Apenas o silêncio era o que saía do meu rosto, agora um pouco mais a descoberto retirada a camada de pó que sentia agarrada aos poros.

A rapariga, claramente jovem levantou-se e por breves instantes fixou o olhar no meu rosto, como que contemplando-me pela última vez. Olhei-lhe de volta, o retorno do seu olhar havia ja desaparecido. Saiu fechando a porta deixando-me de novo sozinho no meu pequeno mundo, como um largo vazio.

Afogam-se as palavras plácidas de mim, não mais as sinto como há instantes. Antes de formuladas asfixio-as em rasgados pensamentos a embalar o meu destino em ti. Grande sorriso aberto e franco, grande o sentimento que acolho em mim e me acolhe a expressão dos dedos que descem pela porta daquele jipe na descoberta calada de algo que não se fez, para meu jubilo. Prendo todo o alfabeto nos meus braços e levanto-me, retorno ao meu veículo e confundo-me no sentir que extravasa calado em folhas brancas que piso a cada passo vazio de mim. Vejo-me ao reflexo do vidro que ali me separa da selva do espaço macio, sei que endoideci de tanto te querer como um devaneio a solta, uma vontade a galope desalmado que surgiu vindo não sei de onde como um vento que espalha brisas de perfume em nós.

Regressamos de novo às instalações da missão. Sabia que o caminho inverso não era possível de ser feito naquele momento sem o auxílio militar correspondente. Foram mantos e mantos de palavras que cobriram os meus pensamentos durante aquela viagem de retorno, sabendo que estarias além terra, sozinho talvez, ferido ou não, longe da tarde quente que havias amanhecido no colchão inventado contigo.

Silencio enternecido, derrotado, este que me encerrava os lábios. Era agora esse silêncio que me ditava o caminho... “-Não se preocupe. Havemos de o encontrar e resgatar para junto de nós!”- foram essas as exactas palavras que o furriel que conduzia o jipe me acenderam um pouco a esperança de encontrar Ricardo. Afastei o olhar do meu pensamento de que estas palavras já não existem, não posso fechar este livro sem ler o capítulo final e assim por isso, acendo a ilusão sábia da esperança e é entre os nossos lábios que iremos continuar a história...

(Continua...)

quinta-feira, março 20, 2008

XXIV - TRILHOS DE SILÊNCIO

Percorro contigo as mesmas ruas, sinto-te ao meu lado. Olho em busca do teu olhar e estou sozinha. Os degraus de um tempo que passa avidamente entre nós, dão-nos a certeza da presença ausente um do outro.

Tento adiantar-me ais dias atrasando as memórias cativas em mim sabendo-as futuras e com sede de as viver. Não posso acreditar e por isso faço batota comigo mesma. Corro à frente do sonho que pela noite me abraça e me fala ao ouvido de um amor real e que por isso não pode morrer. Sem qualquer receio corro, corro, passeio-me pela vida quando a manhã abre a porta e sigo a fantasia que a noite não me deu e que os dias não sabem que existe.

Grito o teu nome pela penumbra de um espaço mágico inventado, entre o crepúsculo do dia e os brilho dos arbustos, como se as nossas almas se tocassem. É alvorada de uma paixão que não quero interrompida, encruzilhada de lábios que se tocam e olhares desenhados sem qualquer sossego. É entre o encanto e o desencanto do fim do sonho que os nossos tempos se fundem e as lágrimas rasgam-me o rosto num suspiro de saudade que morre aos poucos.

É saudade, é desespero, são fantasias inventadas, partilhadas, dor imensa que me foge à carícia desejada, um beijo ansiado de uma presença ausente, num tempo que temo não ser mais o nosso... são gargalhadas, riso histérico da miséria humana que me deixa aliviada, é um rosto desconhecido que me envolve num desespero aliviado. Ajoelho-me ao mistério do caminho que tomaste e choro, soluço, rio com gargalhadas soluçadas. Sei-te vivo, sei-te vivo.

Penso-te nas linhas bambas do meu ser, por entre pensamentos surdos que esvoaçam na introspecção da minha meditação. Cruzo-me contigo em fugazes encontros de brumas e segredos enquanto caminho em terrenos espinhosos sem rumo certo e distinto. A espuma vermelha de um oceano de terror derrama-se por entre as esquinas do meu corpo. Envolvo os pés com as mãos e aguardo o meu destino que o peito demonstra sem qualquer sossego. Já pouco me resta sem qualquer receio, a angústia, a maré que me envolve a alma e que desapareceu num ápice porquanto me levam para longe de ti. São momentos vazios como noites de insónia estes que me trazem à memória o rosto de Melinda.

Neste recanto de um mapa desconhecido sei-me chegado ao destino desconhecido. Fazem-me sair soltando por entre berros gritos de guerra e ameaças concretizadas sobre o meu corpo. Várias vezes sinto na pele os fios de certeza bordados a areia que se atravessa por debaixo das minhas botas. Dirigem-me para um edifício sem insígnias, placas, letras ou cores. Apenas reconheço ao perto o edifício da Biblioteca de Sarajevo, um monumento inspirado no Alhambra de Granada e eregido à convivência multicultural até a artilharia sérvio-bósnia o reduzir a escombros já no passado ano de 1982. Inimaginável a história perdida por entre milhares de preciosos livros e documentos que muçulmanos, sérvios ortodoxos, croatas católicos e judeus haviam conservado ao longo dos séculos. Um história perdida que agora revivia na minha pessoa.

Mergulhei na escuridão de um corredor como gado empurrado para as brasas de uma marca de um dono que jamais conhecerá. Assim me sentia ausente mas terrivelmente presente numa peregrinação ao palco de horrores de um genocídio feito num só volume.

Fecho de novo os olhos, e consigo ouvir a melodia da tua voz, mesmo quando dela sai poesia sem palavras.

(Continua...)

segunda-feira, março 10, 2008

XXIII - O MEU DESESPERO

Migalhas, pedaços, estilhaços de alguém que fui, limalhas de um tempo que se fez gotas de um mar que sou mas que em areia seca se tornou, e agora, que me refaço, agora que me reencontro por entre partículas desconhecidas, cada uma com história em livros de séculos vividos em capítulos de murmúrios que me fizeram por entre a noite, onde os ainda oiço ao meu ouvido, escorrega-me por entre os dedos, preso em duas mãos, um futuro que nasceu em mim qual afluente secreto nos subterrâneos da pele, corro... corro sem alma em sangue vivo de vida pingando por entre um emaranhado de pegadas perdidas em busca dessa tempestade que me apazigua a alma e me preenche o sentido.

Abro os olhos e adormeço os meus desejos... quero ir alienada, coerente na razão aguentando a tempestade que me atravessa o coração, à procura do que é certo. A estrada está cortada. Dois veículos da EUFOR barram a passagem. Pedem-me para regressar, a cidade está sitiada. Tento-lhes explicar a importância da minha viagem, algures naquela estrada faz-se à deriva quem eu procuro. Insisto que devo passar mas as ordens são específicas e ninguém deve passar “- Nunca deixamos alguém para trás, nunca abandonamos um soldado, nunca viramos as costas a quem de nós precisa e não vai ser hoje que irei fazer isso sejam as vossas ordens quais forem.” Gritei com as fagulhas da alma pendurada no céu e um brilho nos olhos que me denuncia o desespero. Nas vozes soltas que o silêncio guarda, olham-me como personagens que somos num palco cujo enredo se faz com forças desconhecidas “- Não deixaremos nunca ninguém, deixe o carro e entre no jipe. Iremos em busca de quem procura!”

Aquelas palavras com poderes de magia aquecem-me o ânimo e sossegam-me o desespero. Entro no jipe e comigo acompanham-me 3 soldados da EUFOR, todos armados. Arrancamos repentinamente como a poeira que se levanta por entre os trilhos que galgamos. “-A cidade está fechada. Hoje não é um bom dia para se andar por aí sozinho. Existem muitas brigadas da guerrilha e esses atacam qualquer um apenas para poderem usar como moeda de troca.” – dizia-me o soldado enquanto percorríamos a estrada.

Num momento indefinido, ali ao longe mas ainda assim tão perto, fora da estrada, um dos veículos do aquartelamento. Conseguia identificar-lo pelo emblema e o código de identificação pintado na carroçaria. Não queria acreditar o que os meus olhos viam, uma silhoeta desfocada no local o condutor, inerte. Fecho os olhos e invade-me uma sensação amarga na boca. Sob a alucinação de cinco luas de brilho, os meus olhos perdem-se na imensidão do céu. O jipe para, saiem os soldados em reconhecimento de quem eu sei que não quero que seja. O tempo pára. Tão subtil e frágil é o sonho que nos toca ao de leve pois ao acordar lento da manha seguinte, pode ele já não se fazer presente. O sorriso... o teu sorriso que me falou nos silêncios que me encantavam com as palavras que ousavas me escrever com os teus olhos. Como é bom saborear a cegueira que me entregas nas entranhas, vincada nos lençóis onde nos deitamos, abraçados ao calor ardente da nossa paixão. Não, não queria acreditar ter-te perdido, ali, sozinho. Ainda guardo o teu beijo comigo, ainda o sinto no céu da minha boca e por isso não podes ser tu aquele que ali se faz sem alma, não podes.

Retorna ao jipe um dos soldados em passo acelerado. Entra e enquanto alcança o rádio profere as palavras que não queria ouvir “-Está morto!”

O mundo fraqueja e num instante o principio faz-se de fim. Solto lágrimas que me ardem na pele e o meu corpo estremece ao lume que se ateou dentro de mim, a alma rende-se ao desespero, saio do jipe e corro a procura do que é certo.

Não.

Não preciso de te recordar, sinto-te comigo, habitas dentro de cada recanto de mim e não posso por isso te perder.

Corro... corro a procura do que é certo.

(Continua...)

terça-feira, março 04, 2008

XXII - NAS TUAS MÃOS

Afundo os meus olhos dentro de mim mesmo enquanto minh’alma se entranha mata fora em busca de auxílio. Sinto-me a ficar ausente de mim mesmo sem perceber muito bem o que está a acontecer. Um sede fremente inunda-me enquanto o calor não cessa de aumentar como um lençol de fogo que me cobre a pele. Sinto-me cansado, muito cansado e já não sinto, oiço, nem os olhos se abrem mais mesmo que se procurassem num voo de fuga o fim do pavor que me desfaz os sentidos.

O barulho característico de um motor, os solavancos incertos de uma estrada de terra, estou com uma manta por cima do meu corpo e uma mochila por baixo da cabeça, sinto a fivela que a fecha. Abro lentamente os olhos, ao meu lado, homens de vestes incertas, fardas rasgadas, fumam como se um espólio tivessem capturado com a certeza de cada exalação, brincando. De certeza que perdi os sentidos e ao me ver dessa forma traçaram para mim um destino certo, provavelmente um que lhes traga lucro. Serviria eu de moeda de troca? Era esse o meu receio no momento. Sinto-me quebrado, desnorteado, fecho os olhos e deixo-me ficar, humedeço os lábios secos que me quebram a sede certa.

O dia nasce solarengo muito embora a ilusão do seu brilho desvanece por entre as areias quentes do deserto em que se havia transformado Sarajevo, e como uma miragem, num ambiente tragicamente mágico, reina o aroma único do desespero entorpecido por entre a cortina de fumo e fogo que varre as formas e contorce as planícies áridas da cidade.

Deixo-me ir deslizando pela praça sem saber muito certo o que fazer. Perdi a noção da realidade e o papel que me levara até ali. Paro... ali no centro do meu mundo olho ao meu redor... rostos cegos e silenciosos correm num festim silencioso, reflexos escaldantes, estagnados por fora, turbilhões e ventanias quentes por dentro. Eram os olhos, apenas os olhos que refrescavam o calor que subia na minha essência, um longo crepúsculo de desejos explícitos, invisíveis á superfície da alma que me despertam o ameno nascer de um dia que esperava ser tudo. Não posso deixar me vencer pela inércia, não posso. Olho ao meu redor de novo e procuro o carro que ainda na noite anterior havia sido testemunha da magia de um beijo. Corro, corro como se a minha vida dependesse disso em direcção ao mesmo. Não me importa o desrespeito da missão, qualquer acção deve ser comungada da sua reacção, e a minha, era partir em busca do Homem que se alongou à espreita da janela do meu longo Inverno, e ousou ao ritmo da chuva morna que se aninha no regaço das árvores, arrefecer a saudade das longas tardes de verão, oferecendo-me a luminosidade da Primavera que deixei partir numa manhã sem sol.

No brilho do meu olhar levava gravada a imagem do rosto de Ricardo, entregando-me apaixonadamente ao encanto dos seus traços, das linhas das suas mãos fortes com que me acariciava o cabelo na leveza de umas asas de borboleta. Saio como um sopro, rápida e segura na derradeira vontade de o encontrar. Deixo para trás anos invisíveis de silêncio cheios de sentimentos e emoções perdidas no tempo.

Corro neste imponente circo da vida em busca do meu equilíbrio sobre a fina fronteira do horizonte que me separa o dia da noite. As luzes que me guiam os passos fazem-se de faróis que ofuscam o publico que nesta plateia assiste ao meu desespero, sem rede, mas com certezas...

(Continua...)

segunda-feira, março 03, 2008

XXI - MEDO

Nas asas da saudade deixo-me vagear até as cortinas que me escondem o amanhecer. O caos que vejo lá fora corta-me a respiração, sufoca-me o intimo ao mais leve roçar de pensamentos julgados perdidos, instantes que outrora se fizeram tão próximos que desejei esconder.

Abro as cortinas, deixo voar no céu da noite este alvoroço desmedido que se estende por toda a minha pele e passeia em busca dele por entre um olhar desesperado. Conheço muito bem Ricardo, outrora companheiro da minha melhor amiga e não fora o seu acidente trágico certamente estariam juntos neste momento. Sei que não perderia esta liberdade de sentimentos que povoam aquela cidade. A sirene irrompe a azáfama que já se sente. Estaríamos a ser mobilizados para uma retirada estratégica. Certamente numa questão de minutos toda a unidade BTS-4 estaria já fora do aquartelamento e a caminho de um local seguro. Teria de me apressar não fosse o caso de me deixarem por entre a confusão que se instalara.

Rapidamente pego na roupa amarrotada e perdida em cantos do quarto e visto-me tapando a pele que à pouco se sentia tocada de uma forma apaixonada e desejada. Deixo à mercê dos meus pensamentos o destino daquele Homem que me fizera Mulher, que me inundara de um fervor intenso inflamando a minha pele de beijos e segredos por onde o toque dos seus lábios havia traçado um trilho ao baú fechado até então das minhas emoções.

Dando uso a todos aqueles anos de treino militar saio do meu quarto carregando já todos os meus pertences. Sabia perfeitamente que em missões como aquele nunca se deveria desfazer a mochila. Nunca era propriamente uma visita pacífica a uma ilha mediterrânica. Corro desesperada por entre a praça, os olhos saltam de farda em farda tentando reconhecer o seu rosto que me encanta e se torna agora fruto da minha agonia. Com a mochila as costas entro no seu quarto... vazio... aquela ausência que se perde no silêncio daquele espaço sucumbe aos meus impulsos suspensos e leva-me os joelhos à gélida calçada de cimento como que esperando por um sinal teu que me traga de novo a esperança já perdida.

Sinto em mim, em mim Mulher que algo de errado terá acontecido. O tremor das explosões que sinto virem da cidade, o ruído das armas que não se fazem longe dali anunciam que todos estão já de alerta e que naturalmente estariam a preparar-se para o êxodo. Não era o caso deste que fizera alcova do meu quarto crescente. Algo de muito errado acontecera. Sinto-o como a expressão do meu rosto quando a força da saudade me eleva os olhos ao céu.

Corro em direcção ao ponto de controle de entrada e saída do aquartelamento, carinhosamente baptizado por ele como “checkpoint”, o local onde esperaria por mim se algo acontecesse, tal como me havia sussurrado enquanto me julgava a dormir. Em meu peito arde agora o fogo de uma estrela cadente ansiosa pelo reencontro. Não o fazia como encantador de promessas quebradas por isso estremecia provocando-me uma sã loucura na alma. Pelo caminho presenciava um triste alvoroço de viaturas que chegavam com camaradas da minha unidade severamente punidos por uma batalha que não era a nossa. É inacreditável saber-nos num território hostil, estranho, apenas com intenção de imparcialmente auxiliar aqueles que se cruzam inesperadamente por entre balas perdidas, rostos de uma miséria tão actual, e ainda assim fazem das nossas fardas alvos preferenciais do seu egoísmo selvático e depravado pela conquista de algo que nunca fora deles.

Não consigo mais conter a melodia que o meu impulso ansiava e num instante, ao ver-me sozinha apenas com o soldado que se escondia por detrás da guarita, sabia-o ausente das instalações, perdido com a sua insana paixão por um prefácio a preto e branco capturado na lente da sua camera.

Num rápido e mordaz instante sinto o impacto na minha face de um objecto pesado que me faz cair para cima do corpo do soldado cujo nome nem me tinha dado ao sentido de o conhecer. Atordoado, de mim transpiram pedaços de desespero, resquicios de loucura e delírio desejando que tudo aquilo se transforme num pesadelo que me fará acordar nos braços de Melinda. De olhos postos neste luar que me aconchega as lembranças, as únicas vozes que oiço são de ódio e os olhos que me abraçam desferem golpes covardes no meu corpo que não lhes confere qualquer risco ou perigo. Não sei se preferia agora aquele destino ou o soldado que me acompanhou nos seus derradeiros instantes de missionário militar.

Retiram-me do veículo deixando-o ao abandono, sem respeito algum seu habitante, despojando-o da sua farda e botas, como se de um mendigo se tratasse. Não consigo correr, muito menos caminhar, ainda combalido do acidente e dos golpes que me infligiram, levam-me de rastos como um animal até um camião que ali junto a estrada aguardava por aqueles guerrilheiros, de que guerra seriam eles, essa era uma história que certamente muitos gostariam de conhecer. Não seria inédito ver ovelhas tresmalhadas de um exército por si só desmembrado, transformado em mercenários que buscam na guerra apenas e só o seu proveito próprio. Desses sim tinha receio pois nenhuma regra ou respeito se aplicava a eles. Temia pela minha vida.

(Continua...)

domingo, março 02, 2008

XX - SEM FRONTEIRAS

Pelo caminho observava longas fileiras humanas de rostos chamuscados, dissidentes de uma cidade desmoronada. Nos seus rostos, o desespero, a tristeza que os carrega pela berma da estrada, vidas interrompidas por vozes que ecoam de armas carregadas de onde o diálogo não existe. São aquelas rugas que procuro na minha lente, o brilho fosco dos olhos de uma mãe que carrega o seu filho como um tesouro acabado de encontrar no emaranhado de uns escombros.

O som ensurdecedor das AK-47, a arma de eleição dos guerrilheiros fazia-se sentir cada vez mais próximo. A cidade ao longe era cada vez maior, a brisa quente que me atravessava o rosto anunciava-me um inferno acabado de acender, brasas junto a um rastilho de pólvora prestes a ceder à tentação de explodir.

No sentido inverso, veículos da ONU regressavam apressadamente para as instalações. Feridos, sim, via perfeitamente fardas ensanguentadas. Olhei para o rosto do Tenente que me conduzia até à cidade, medo, era esse o sentimento que lhe desenhava o contorno da sua face ao ver soldados do seu batalhão feridos. Começara a achar que tinha sido uma péssima ideia a de sair do aquartelamento assim sem protecção. Chegado com o nevoeiro frio do amanhecer, um zumbido forte se estende em todas as direcções dos meus sentidos. Estamos cada vez mais próximos do Inferno e receio ter-lhe aberto a porta e de mão dada, juntos numa lucidez perdida, ceder-lhe passagem para o quarto mais escuro da Lua.

Um estalido, fumo, um sabor a ferro que se apodera do meu paladar, chamas, o jipe que rola descontrolado pela estrada fora. Ainda sem saber o que acontecera, sinto-me a ferver, um incandescente caldeirão de sabores e sensações nada agradáveis... procuro a linha do horizonte por entre o fumo e o nevoeiro, agarro o volante e instintivamente o travão de mão do jipe. Algo acontecera, deixei passar os efeitos cromáticos das cores e tudo o que via agora era a preto e branco, como se eu próprio fosse artista principal de uma de muitas das minhas fotografias. Obstáculos de pedras, arvores, ventos e gritos começaram a se formar à minha frente. O jipe despistara-se por entre o mato de uma das bermas da estrada. Segundos depois, paralizado, mostra-me o que não mais era uma parede invisível. Um qualquer engenho explosivo acabara de cair ali atrás, bem ao centro da estrada que percorríamos, um instante único separara-me de um escurecer eterno. –“Meu Deus!”- as minhas mãos, a farda que trazia, coberta de um vermelho rubro, vivo, estaria ferido? O meu pensamento corria uma maratona sem fim, cega... mas não, nada além de uns arranhões, cortes superficiais. O meu motorista, o Tenente que me acompanhava, morto... ali ao meu lado o seu corpo fazia-se inerte, atravessado por peças metálicas que apenas poderia supor serem do próprio jipe tal era o estrago que este aparentava.

Tentava resistir ao brilho do olhar sobejamente conhecido daquele rosto de pele dourada, queimada, bronzeada pelo ardente vício de uma guerra sem pátria.

Silêncio...

Nada se movia, nem um som ou a brisa suave se fazia sentir como era esperado numa manhã de Primavera. As lágrimas, a revolta, a desorientação de um momento nunca pensado ou mesmo desejado. Abro a mochila e tremulante retiro a camera. Aquele jovem soldado morrera sem conhecer o triunfo das baionetas, não seria um herói condecorado por salvar o seu pelotão das mãos de um qualquer inimigo algures por esse território hostil. Não poderia deixar de lhe honrar a vitória de me deixar vivo, mantendo-se sereno ao volante e evitando que o despiste me levasse a um destino idêntico. Aponto a camera ao seu rosto, e como se um sorriso grave deixasse os seus lábios. Como que com magia e firmeza, os dedos que agora se fecham tristes, apertam a nota soprada de uma partitura incompleta que ali se compunha por palavras soadas a gritos e desespero.

O fumo do cigarro serpenteava por cima da sua cabeça inesperadamente descoberto por entre a bruma do amanhecer. Do silêncio que há instantes se fazia, agora, transformado em vozes intimidantes e de um idioma desconhecido para mim, levava-me a uma realidade surreal. Armas apontadas a mim, gestos rápidos e ameaçadores para que saísse do jipe. Não me imaginara prisioneiro de uma guerra que não era minha.

É de olhos fechados que estendo a mão e te procuro na quieta madrugada dos meus sonhos, desconhecendo os cheiros únicos da noite escondida entre as cortinas fechadas do meu quarto. A sós, vagueio com dedos pelos lençóis que à pouco se preenchiam com o teu corpo, sentidos despidos de mim e de essência descalça com que dei a ti por entre janelas abertas de paixão.

No fundo de mim encontro vestígios de ti, como tatuagens de mil cores que acendem o misterioso indigo do céu ainda escuro mas com clareiras venenosas de emoções contraditórias. Cheiros unidos e o sabor da tua boca leva-me a querer beber ainda mais da pureza da tua fonte por onde correm águas cristalinas de um rio desenhado nas linhas das tuas mãos.

Na maciez dos lençóis que se fizeram ninho para nós, como que erva orvalhada, amanheço o sentir do meu corpo e procuro-te de novo ao meu lado. Estendo a mão e não encontro o calor da tua. Serena como a aurora que acaria os seios que se fazem desejosos à saudade, sei que os sonhos são assim, quando abrimos os olhos, já lá não estão. Mas as marcas na pele, o sabor, os cheiros, a sensação que me inunda ainda as entranhas que me levam ao pomar do fruto proibido, dizem-me o contrário. Então porquê a ausência?

(Continua...)

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

XIX - REBELDIA

Sem arrependimentos, sem dúvidas ou porquês, ali ficamos, um junto ao outro num profundo silêncio de pasmar nocturno mas naquele conforto perco-me entre o vazio e o cheio que me foi oferecido como que a cair de um lado e amparado do outro. Questiono, mas não quero a resposta. Fecho os olhos e adormeço.

Acordo, olho para o relógio que se manteve no pulso e sei que a noite ainda se faz. Há noites assim, em que nada me deixa dormir e tudo me faz pesar a mente. Ao meu lado um corpo quente se faz parado numa desmedida compensação de desejo. Olho para o lado, não a vou acordar. É dentro de mim que preciso de me encontrar e selar a ilusão de um beijo com o cheiro que se mistura com o meu e saber o que querer entre os meus braços vazios. Estendo um toque suave ao rosto que acolheu os meus lábios para sentir aquele calor em mim e vagarosamente saio dos lençóis, coloco a roupa que até à bem poucas horas carregava e decido sair, aventurar-me pela noite naquela cidade envolvida num turbilhão de emoções opostas.

Abro a porta de entrada deixando apenas o olhar procurar sombras nocturnas de vigia e escapar sem ter de enfrentar consequências piores à que esperava ter naquela manhã quando me reencontrar com Melinda. Certamente que o mundo liberal e a semente da paz é muito mais frágil mas não pretendo magoar ninguém. Ninguém no horizonte, saio apressadamente mas num silêncio absoluto, a segurança será encontrada no perímetro do meu aquartelamento.

Hoje é noite de guerra, a cidade pegou fogo. Os veículos encontram-se fora. Certamente uma missão de urgência foi iniciada. Sinto os lábios molhados, um êxtase diferente mas nem tão pouco menos entusiasmente me enche as medidas dos olhos e lanço-me ao desafio. Entro nos meus aposentos e carrego na mochila os rolos e a câmara.

O sol começa a despontar em luz ténue e encantatória, atrás de si um rasto avermelhado alumia os tons nocturnos mostrando-me o caminho a levar. O sabor dourado daquelas chamas consomem o meu desejo de as capturar, aprisionar os instantes que nos devoram a sanidade das sombras lascivas na penumbra. Corre uma brisa morna, saio ao alcance do perigo mas o espaço que já não é espaço, abre lugar ao infinito de tudo aquilo que os meus olhos encontram no horizonte.

Passo pelo “checkpoint” identificando-me de imediato ao soldado de plantão – “Algum veículo que me possa levar até àquele ponto no horizonte?” – indicando na direcção do avermelhado que sobrai no horizonte – “Salte para cima daquele jipe que está ali fora, o Tenente poderá o levar a um local seguro.” – respondeu-me o soldado.

Escrevi todas as regras pelas quais mordazmente me desafiava a seguir, segurança em primeiro lugar, e agora pelo gosto audaz de me sentir o rosto queimado pela vontade de fotografar, quebrava-as a cada passo dado.

Quero saciar o caos que me queima e lacera o discernimento.

Abro as portas à rebeldia...

(Continua...)

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

XVIII - MAGIA

Um beijo, o olhar que trocamos, a Alma que se toca por entre carícias perdidas. Gostava que as palavras fossem dedos que se enlaçam entre as mãos. Gostava. Gostava que o toque fosse como sentir o que já senti e o que nunca senti. As palavras são apenas voos rasos entre recordações que ainda não tivemos. O que sinto não se faz em palavras, não se desenha em telas, não se toca nas melodias do pensamento fugitivo.

Aconchegamos os corpos um no outro, aninhados na sua nudez fisica e emocional. Os olhos fecharam-se, passamos a ser estranhos num mundo apenas nosso. Gostava. Gostava que o tempo fosse carícia que me aquieta sempre que ao longo da pele dos dias quando não a encontro nos meus olhos. A alma pede. A alma evita. A alma fica. As palavras travam. A voz silencia.

Enquanto ali deitado, os pensamentos percorrem-me o rosto denunciando sentimentos contraditórios. Gostava. Gostava de poder sentir nestes abraços intensos de divagações que o coração me empresta, um pouco mais, muito mais de um amor interrompido. O coração... aquele que me aperta o peito e me desfaz a razão em pulsações descontinuadas, acelera sempre que oiço a voz dela. Gostava de parar. Gostava de sentir o vazio da vida e preencher-me apenas de alguém que me inunda totalmente o meu ser.
Gostava... gostava de olhar para ela e dar-lhe em silêncio todo o Amor que fervilha dentro de mim...
É.
Gostava...

Encerro o pensamento e dou por mim a deslizar os dedos pela sua face de onde espreita um sorriso acalentado pelo calor que nos rodeia. Sinto felicidade no rosto dela, um desejo cumprido e realizado, sinto-a aninhada em mim procurando a protecção para uma noite que se faz já longa. Abraço-a e pouso o meu rosto junto do seu.

Na embriaguez dos sentidos procuro nos pensamentos a ponte que me leva ela. Tento fixar o meu olhar, a tua pele, o teu toque... Oiço vozes que preenchem as horas vagas e silenciosas daquela noite. Em mim tudo sinto como um todo onde eu e tu somos os únicos elementos deste universo de emoções. No teu prazer encontro o meu, na tua pele encontro a minha. Queria poder mergulhar no fundo dos teus olhos e desse toque primeiro, atingir o centro de um orgasmo de Amor.

No todo que somos o teu sorriso é o meu, a tua língua é a minha... o beijo é mel que nunca me sacia desta fome louca de ti. É nos teus lábios que me dás asas para contigo ir na doce obsessão de uma cama desalinhada, dois corpos enleados, dois amantes esquecidos do tempo... Na carne espicaça o vicio do cheiro de amar, no coração bate o doce aperto de não conter o lume de paixão que arde em todos os poros.

Sinto magia a acontecer por entre os pensamentos que se cruzam com os sonhos...

De pensamento descalço, caminho pé ante pé. Oiço o eco dos meus passos ressoando dentro de mim como vozes e segredos que me cantam á alma no silêncio da noite. Sei para onde vou, sei para onde me chamas, sei para onde queremos ir. Sinto-te em cada passo simultâneo que damos sem saber. Não te vejo, nem tu me vês, mas sentimo-nos á distância do aroma do beijo que ansiamos.

Dou asas ao sonho e carta branca ao coração para me guiar nesta estrada de bermas escuras, onde as sombras que me espreitam não me assustam, nem a névoa do súbito fim da estrada me demove da caminhada.

Sigo os teus passos que são os meus...e rapto-me da realidade para ir ao teu encontro. É para o calor dos teus braços que me levo sonhando, em cada encontro de mim...em ti !

No todo que somos, é quando não te tenho junto a mim que mais sinto o Amor que preenche o nosso universo, mesmo quando estamos longe dele, e quando perto, renova-se a cada olhar, a cada carícia que se cruza por entre nós...

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

XVII - CAÇADOR DE SÓIS

Aqui chegou o silêncio. De um fabuloso dia mágico descolou-se uma misteriosa noite, olhava para um céus polvilhado de estrelas, uma a uma levando-me para outra dimensão. Atrever-me-ia a espreitar? Deveria ousar em conhecer esse mundo que se oferecera ainda a pouco e cortar a fita vermelha e ser convidado de honra? Sabia-me certo por um pouco mais de magia.

É certo que procuro o aconchego nas lembranças, abandonado e inquieto aninho-me no colo do meu tempo e sei que me embalaria numa dança ausente onde só os olhos fechados conhecem os passos. Já deixei de ser criança e o querer quente de um beijo desperta uma poção de prazer que guardo sob a minha pele.

Enquanto isso o percursso de regresso fazia-se rapidamente. Melinda no seu silêncio guardava certamente para si aquele encanto de um beijo trocado, tatuado a tez de saudade. O sorriso que escuto trazido pela brisa vinha da minha janela, é a resposta que me seduz sabendo que também eu ouvia a mesma musica que nos havia embalado.

Chegamos. O carro pára. Nenhum dos dois se mexeu. Como que estátuas perdidas numa praça de uma qualquer cidade, apenas se ouvia a respiração às cavalitas, um convite pleno à estrada da ternura que nossos olhos semearam. Saí prontamente do carro, não podia ceder aos que os meus desejos me pediam. Aninhei-me junto a porta apertado por um labirinto sem respostas ou caminhos descobertos que me dessem uma escolha fácil. Lentamente oiço o germinar de passos cristalinos no meu alcance, um leve toque no meu rosto, aqueles dedos, o leve afago da lua no rosto -“Acompanhas-me ao quarto?”- aquelas palavras, qual tridente, arma branca de Neptuno que me leva por oceanos por descobrir.

Soltei as amarras e deixei a nau navegar ao sabor da brisa daquela noite, encontramo-nos de novo num olhar junto a porta do seu quarto, a travessia havia se feito cega e muda. Abriu-se a porta e as mãos tocaram-se num claro convite por campos de girassóis descobertos a dois. Entramos, o quarto desprovido de luz fazia-se apenas descoberto pelos raios lunares que penetravam pelas frinchas daquela que era agora a nossa janela. Os seus olhos brilhavam como se um encantamento houvesse sido lançado, a aproximação cúmplice, os lábios quentes e molhados que se deixam reencontrar, as mãos que percorrem o caminho da pele, um suave trilho traçado ao acaso entre montes e colinas de desejo que as vestes ricas e doces de paixão vão desabotoando aos poucos.

É encantamento sim, sagrada peregrinação impulsiva à cabana dos desejos que no centro do corpo expectante aguarda a chegada soberana do prazer maior. Inspirei, no ar sente-se já o aroma raro e mágico de incenso que dos nossos poros se solta e mistura em núvens de carinho. Agradável e alucinante perfume de nós que a nós retorna e nos vicia neste sonho de desejo. Este alucinado sentimento que não se vê, sente-se e oferece-se em cada momento atenuando e dourando a saudade noutros dias menos festivos e longinquos. O momento que não pára, singela esta a forma deste instante que tudo é e em tudo se transforma, por tão simples o ser. A mirra traça e enlaça os braços que se tomam, nas mãos, marcas doces que ficam nos trilhos traçados e o arrepio provocado na doçura do peito que se afirma ansioso.

As bocas desorientadas, perdem-se numa ânsia das línguas húmidas e inquietas, mãos enlouquecidas e trementes servem agora de guia dos corpos sedentos, que se deslizam, tacteiam na avidez do desejo de se terem, o sorriso cúmplice preenchido de luxúria, contemplamos nos olhos o campo de girassóis calados pelos lábios que se tocam e trocam sussurros de quereres e sentires. Completamente perdidos na essência deste momento, carrego-lhe o corpo até junto do meu e como um príncipe encantado montado nos seus joelhos, invado carinhosamente o íntimo, numa conquista mútua de sensações plenas que nos fazem estremecer o âmago e disparar o pulsar alucinado da paixão. O murmúrio de um delírio pungente que lateja por toda a nossa pele, a mente desassossega-se a cada instante que se faz com o movimento do corpo que lhe invade de novo, lentamente, conhecendo-lhe o olhar enquanto me afundo para lá da linha do horizonte. De olhos vendados com o ritmo do desejo que aumenta a cada segundo, dou asas as mãos que lhe procuram os seios sedentos pelo toque, os gemidos profundo são como mapa nesta estrada que me guia pelo prazer partilhado a dois... rapto-a da realidade e estático cedo ao sabor de um beijo profundo, calor da alma que se funde nos nossos lábios –“Quero tudo!”- diz-me ela por entre olhos semi-cerrados e as mãos que cravam no meu dorso. O recomeço alucinado, o enlaçe das pernas nas minhas como raízes de um momento que se faz eterno, a transpiração ofegante dos corpos que gritam por sensações escondidas, reprimidas, sinto o fluir da seiva que brota de nós e se dilui por entre um gemido longo incontido da alma.

O silêncio sacia-se agora das loucuras mais secretas, oferecendo a beleza das cores únicas dos corpos molhados e mistura-se em tons e cheiros de Amor. Beijo o seios com a palma das mãos e afundo o olhar na essência do brilho que brota por entre as pestanas humedecidas nos nossos sentidos.

(Continua...)

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

XVI - O MEU ABRIGO

Enfeitiçados pelas saudades, caminhamos pela estrada fora conversando um para o outro, enquanto isso, o céu abraça a terra e a linha do horizonte dissipa-se, estremecemos quando o nosso olhar se toca, e revivemos as sensações já perdidas nas brisas campestres, mas guardadas na alma.

O brilho de prata e ouro, elementos que um dia admiramos no dedo de alguem, intensificou-se com a distância, nas nossas mãos entrelaçadas, sentimos fluir uma sintonia cósmica que não se explica, contemplamo-nos sorrindo e fechamos os olhos enquanto as palavras eram trocadas assim, sem nos tocarmos, saciando a fome do corpo, apenas com o calor que emana da nossa pele.

Os lábios, entreabertos, sedentos, esperam algo invisível, tremem, desejam, e entregam-se ao tão esperado toque mágico, a tal carícia doce e perfumada, que nos abre as portas do Paraíso, o beijo nosso, que tanto desejámos na imensidade dos dias que o calendário não marcou, porque para nós, o tempo não existe, temos e teremos sempre a eternidade a nosso favor. Traidor, os sentimentos revoltos faziam-me sentir um traidor, penso levemente naquele leito que acolhe o meu coração, e eu aqui, desperto.

Dentro da febre da ansiedade que me consome a alma, o mundo vai perdendo a sua forma, delimito horizontes oblíquos, traço fronteiras de luz no céu, vou mais além de mim, do que é permitido, escrevo um livro de momentos, onde o título já não faz sentido, a capa está corroída pela saudade, e a estante já não comporta o peso das emoções desta história inacabada, que o Amor vai tentando escrever.

Na minha pele, foi escrito um prefácio, quando a maciez de certas mãos, deixaram em mim, pedaços da sua essência, carícias de letras, longos beijos molhados de momentos inventados, colados de desejo no silêncio das nossas bocas, frases apetecidas, toques e suspiros de sílabas quentes, deslizantes entre o tempo e a eternidade que aquelas palavras ainda contêm.

Na imensidão de capítulos escritos e por escrever, vejo-a nas entrelinhas, cruzamos olhares, fingindo não nos ver, folheamos o livro, e enganamos a sede da alma, quando em simultâneo, insistimos em virar e deixar para trás, mais uma página vazia de nós. O silência imperava perante o nosso beijo, um acto que ambos procuravamos, mas não própriamente desejável. Entre um singelo pestanejar e o delicado bater de asas de uma borboleta, o ar incendeia-se a qualquer movimento nosso.

Continuamos o percurso a pé até encontrarmos o veículo que nos havia trazido - "Melinda, obrigado por me mostrares algo que nunca pensei encontrar e reencontrar-me com os meus desejos." - Os seu olhos cintilavam enquanto anoitece cada vez mais. O caminho de regresso era longo, não encontrava explicações para nenhuma palavra ter saído dos seus lábios após o beijo. Estaria sentida pelas minhas palavras? Fosse como fosse o brilho dos seus olhos me diziam claramente para não fazer questões. Olhava pela janela já submersso num mundo novo, entrei sem licença para sofrer, aqui tudo é belo, tudo me faz sorrir, tudo é raiado de esperança, encontro novamente o Amor em mim, desta vez, apertado num canto qualquer, de onde não se quer escapar, aqui não há medo nem receio, sei que, tal como a flor nasce da semente, também a força florescerá em mim, e de novo olharei o mundo com os meus olhos, amanhã, mais perspicazes do que hoje.

Em mim, a presença, o sentir, o desejo perdura, mas de uma outra forma, aquela que eu quiser que seja, nada muda, mas tudo será diferente, ganhei um degrau nesta subida que me leva rumo ao conhecimento, não olho para trás, levo tudo em mim guardado, como um livro que me guia o caminho, pois só assim, a posso sentir sempre mais perto, quando a saudade insistir em chegar.

(Continua...)