
...eu te pintasse um coração!?!?
A sereia banha-se desnudada no ressoar do meu crânio nesse post-scriptum anunciado perfurando lentamente a incerteza da penumbra lisa, despojos de astros de fogo fátuo pirilampo injectado durante a vigília dos répteis que se envolvem numa metamorfose nascente em movimentos filiformes imaginando passos tatuados espalhados ocasionalmente pelo chão translúcido...
Apetece-me entrar mar adentro e navegar, provar o sabor leve de maresia e desaguar nesse porto que me aguarda... sentir as ondas brancas e cruas, as gotas de chuva que salpicam por entre a quilha retorcida do meu navio. São tantos os caminhos que morrem desaguados em vão, no dorso de andorinhas que voam aflitas enquanto a noite vem.
O quarto, iluminado pela luz trémula das velas, exala o perfume do incenso de canela que deixa no ar uma atmosfera enevoada. A música invade todo o espaço, com acordes suaves, enquanto te espero. A cama vazia, acolhe o meu corpo desnudo, que repousa, envolto no véu dos sonhos que despertas em mim. Deixo a alma voar, embalada pelos sons suaves, pairo sob o céu inundado de estrelas, esperando ver-te chegar. Dormente, sinto-te os passos, o teu aroma invade o quarto, a luz das velas estremece juntamente com o meu coração, e a minha alma, pousa sobre o teu ombro, abro os olhos. Estás aqui, o teu corpo descobre-se, e na penumbra, encontro as tonalidades da tua pele que se perdem nas curvas de um corpo de menina, vestido com uma alma de mulher. Os meus braços acolhem a tua alma, e a minha alma recebe o teu corpo, sentimos o toque, sinto o calor da tua pele, e tu sentes o perfume da minha. Não estamos a sonhar, nem tão pouco são meras palavras com que criamos cenários que apenas a imaginação desenha. Somos tão reais, como a mais pura realidade e os nossos corpos entrelaçados, amam-se, sobre esta cama, outrora vazia. Nesta arte mágica em que as almas dançam sobre os corpos desnudos, que a um ritmo suave, se amam, o mundo evapora-se como uma gota de água numa tarde de Verão, e ficamos só nós dois. Hoje, nem o amanhecer desvanecerá o sonho, porque hoje, a realidade surpreenderá o final da noite, e quando o dia se fizer anunciar, encontrará dois amantes, sobre a cama onde habitualmente, só tu acordas.
Preencho-te, contorno-te o corpo com as letras que te invento. Faço-te, numa história de encantar, um instante por revelar. És folha branca onde deito as frases que me inspiras, é virgem imaculada onde entrego em caracteres os sonhos que me despertas. Sinto o sabor da tua pele, gosto salgado de um mar por secar, lugar macio como seda onde adormeço. És palavra, corpo de poetisa, alma vagante, que me afaga o corpo com a carícia das rimas. És dia, és luz perpétua, movimento constante que se entrega numa onda sobre a areia solta da praia. Traços, sobre curvas apertadas, contornam a tua silhueta, escrevo-te ao sabor do vento, em campo aberto, entre os seios doces que me ofereces, por entre as sombras das tuas formas desnudas, por todo o teu ser, até tocar a alma, nesta melodia inconstante que é o fogo da paixão, o prazer que se solta de entre mãos. De teus cabelos colho o perfume, fórmula mágica que me enfeitiça, água fresca que me desperta para este mundo mágico, nova dimensão, sensação de prazer eterno onde cada letra representa um toque, onde cada palavra é um beijo e cada parágrafo um abraço terno e sensual entre nossos corpos.
Já um escuro vem do horizonte, ou a luz se perde do olhar. São os campos perdidos e os montes que se estendem pela noite devagar. São tantos os caminhos e os dias, tantos como a saudade que se tem, talvez um sabor leve de maresia, talvez lembrança do sabor de alguém. Em lisboa, estendida sobre o rio, em lisboa de mil amores perdidos. Só de quem puder sentir que há um mar em ti escondido. Será do luar o brilho intenso, será do olhar de quem eu quero, que faz ir-se perdendo ao longe o escuro e faz ir-se calando desespero. Enquanto o dia vem, enquanto a noite vem, e um desassossego acorda alguém. Uma canção distante lembra outro sonho e outro olhar. Ai se toda a saudade pudesse enfim acalmar. Em lisboa, estendida sobre o rio, em lisboa de mil amores perdidos. Só de quem puder sentir que há um mar em ti escondido.
Talvez a definição de obscenidade seria, pois, a de tornar real, absolutamente real, alguma coisa que até então era metafórica ou tinha uma dimensão metafórica. A sexualidade sempre tem - tal como a sedução - uma dimensão metafórica. Na obscenidade, os corpos, os órgãos sexuais, o acto sexual, não são mais "postos em cena", e sim grosseira e imediatamente, dados a ver, isto é, a devorar, são absorvidos e reabsorvidos no mesmo acto. É um "acting out(1)" total de coisas que, em princípio, seriam objecto de uma dramaturgia de uma cena de um jogo entre parceiros.
Quebramos todos esses compromissos que insistentemente invadiam a nossa liberdade.
Pára com tudo...
Esta noite, conduz-me.Leva-me para longe enquanto a noite misteriosa se transforma em dia.
O teu poema em chama, erupção, transfusão de sangue em seda que me envolve por entre janelas voadoras que me fixam no teu olhar adocicado, porque a sede ávida pelo teu canto me faz viciado em admira-lo, é nicotina que minh'alma mendiga impaciente. Os teus lábios que fervilham a mais de trinta e nove graus centígrados, que eu à sombra sorvo cego sem olhar, que me ferram dardos sem abrolhos mesmo que deles não afluam palavras com rosto de ponte levadiça, são arcos onde transbordam rios prenhes dos teus nardos. Canta para mim, ave formosa de voz sedosa, que a cada canto avisto remansos de desejos renovados e em cada orelha há beijos emigrados à espera de ti.
Meti a chave à porta e ao meu encontro vieram as notas musicais do teu piano de longa cauda negra. Mesmo antes de ver a expressão do teu rosto, percebo que não estás bem. Só tocas piano quando os teus dias são cansados, só quando a pressão é tão forte que te faz explodir. Nesses momentos, os teus dedos, como varinhas mágicas, transferem para as teclas, todas as emoções que habitam em ti. Invejo-as, porque lhes tocas, são aquelas teclas frias que recebem o calor da ponta dos teus dedos. São elas que são acariciadas e gemem por ti. Queria que me entregasses o teu cansasso, a tua raiva, a tua frustração, que fizesses de mim tudo o que te apetece. Hoje decidi ganhar esta guerra fria e vou entrar nessa partitura. Vou entrar no teu mundo e roubar ao piano o toque que é meu. Levo-te para um banho perfumado, passo aquele creme no teu corpo de cetim, visto-te o vestido vermelho que te escorrega lindamente no corpo. Aquele cujo decote faz adivinhar os contornos do teu peito, o redondo da tua anca, a rigidez das tuas coxas. Calço-te uns sapatos pretos agulha. Ponho-te o rímel preto nos olhos e um batom vermelho. Não esqueço o perfume em mim... aquele que te embriaga e que deixa zonza como se eu fosse um forte licor. Apago as luzes. Acendo uma vela. Queimo um incenso. Subo-te para o piano, o vestido sobe insinuando-te debaixo dele, o teu corpo nu. Sento-me perto, cruzo as pernas, e da minha boca saem sabores doces, acordes em todo o teu corpo. Levemente, deixo-te cair para trás, deposito o meu corpo na cauda do teu piano. O teu cabelo espalha-se pelas teclas. A música pára. Huuummm, e agora???
Podia ser uma cama aberta no horizonte, e os teus cabelos num poente incendiado. Podia ser o teu sexo num cume de monte, e os teus seios despidos sobre este prado.
Preciso das tuas palavras mais doces pois anseio pelo teu olhar mais cândido... prepara a forma dos teus braços para que quando me chegar a ti não perca tempo a aninhar-me. Por entre a tela que pintas nesse templo onde anseio por pertencer na atracção do teu pôr-do-sol. Se um dia me fosse permitido fazer um pedido, um pedido especial e único, certamente seria o de te aninhar em mim e sentir-te adormecer por entre os meus braços. Desde que surgiste no meu caminho as luzes das avenidas acenderam-se e voltei a sorrir. Inevitavelmente à luz dos teus olhos sinto a inspiração que me faltava. Sinto-me como o vento que voa sem rumo e pousa no rosto de quem se ama. livre, que se deixa repousar sem rastro, profundo. Chegas-me sempre nas primeiras palavras da manhã, por entre o desejo de sentir o aroma das flores plantadas no teu jardim onde colhes a paixão que brota por entre os sentidos que nos abraçam e depositas o bailado febril das vontades sonoras do amor por entre o ar sonando no sonho como uma nuvem que se perde e ali permanece a flutuar no teu oceano quente ao sol. Para ti absorvo o sabor de um verão em cada beijo cego que te ofereço antes de adormecer, surdo e mudo respirando de súbito, em uníssono num só frémito a insónia submersa que me provocas na vontade de te querer e que regressa pouco a pouco aos nossos braços, afogados na espuma do teu mar quando me tens junto a ti. São breves mas intensos nossos encontros, de olhos, boca, peito e mãos que se fazem por entre o corpo onde percorro todos os vãos, as linhas e os contornos que desenho qual pintor na ânsia de desenhar e decorar para mais tarde recordar. Amo sentir o passar da minha mão, carinhosamente, pelos cabelos perlados do teu calor e tenho a recompensa de um sorriso suspirado que nem os Deuses se atrevem a copiar, tal como uma nota impossível de reproduzir em qualquer instrumento e ali fico, saboreando-te a meu lado, sopro-te a fac
e, de mansinho, apenas por instantes para te refrescar e deixo-te submersa num doce sonho ao qual lentamente escrevo nesse livro que nem sabes que escreves, mas onde a autoria te pertence, nesse capítulo que te dedico e ao qual aspiro que se prolongue por o tempo passado entre nós. Sabe bem, sim sabe bem sentir as tuas palavras a escorrerem por entre os meus lábios que te procuram, a penetraram-me a pele e a percorrer-me por dentro até chegarem ao coração, deixando um rastro de fogo à sua passagem e sinto, sinto o meu corpo a queimar enquanto miro os teus olhos e perco-me nesse céu verde azulado que me ilumina a alma. Amo quando bebes minhas palavras numa doce lentidão para sentir o seu sabor. Sinto-me cúmplice em ti, cúmplice de um segredo de criança, daqueles que se fazem juras de sangue e honra a sua sede guardando-o num frasco de vidro para o contemplarmos juntos, sempre que o quisermos. Fecho os olhos e estendo a mão em teu rosto... não preciso ser escultor para saber o que desenhar por entre o partir da pedra... sei que o cinzel aguçado dedilha por entre as tramas do granito numa valsa sincronizada com o que sinto e ao som de pequenas histórias que escrevemos entre nós, e deparo-me com teu rosto esculpido no qual viajo nos teus mais doces encantos e sou teu, com vontade e com gosto. Penso em ti em todos os minutos do tempo que os dias nos trazem e sempre penso com a ternura e o amor no qual procuro recordar os detalhes, de quanto carinho para comigo existe em cada um dos teus gestos. Existe sempre na vida uma música que consome e queima nosso coração por entre a qual se tenta encontrar na nossa mente lembranças e momentos algures escritos a dois e que nos toca aquece a alma... minha música... não é feita de sonetos, de acordes ou baladas... a minha música és Tu na plenitude do teu ser, na expressão do teu olhar, fixo, perplexo, comovido, na carícia dos teus lábios que brilham, explodem, espelham toda a fúria do desejo sentido, no toque das tuas mãos por entre as quais sinto arrepios, se soltam faíscas, na medida exacta da minha atracção. Sei que sou uma carta escrita por entre letras soltas, uma brisa, um pássaro que voa por entre as ondas do luar, ácido, mel, um homem que também chora, ou mesmo um menino que implora, por entre trovoada seguida de um jardim enfeitado... Sei o que sou e sou simplesmente um Homem de alma, que te Ama!
Acordei agora mesmo para ti e tenho na boca o suave e doce sabor da certeza que podia dormir em tuas asas que me tocam os dedos e me levam a afagar mágoa que exista da tua alma nua de esperas, a tecer teias de enlevo por entre dores escondidas nesses teus cabelos loiros de Sul que agora se sentem tentados a acariciar teu corpo branco num vento Norte, exausto por tanto caminhar em avessos e no reverso do trevo.
Fecho os olhos e revivo a alvorada do teu rosto como uma menina e moça de olhos derretidos num amanhecer menos preguiçoso. Fecho os olhos e releio nos lábios madrugadores os segredos que falam de fronteiras quebradas, das margens do rio que atravessamos que se aproximam num breve olhar.
Conheço-te nas muralhas externas do teu corpo e na imensidão do oceano que te enche a alma, por entre esse caos de menina-mulher onde esboças largos sorrisos em poemas pintados nos teus lábios que me aquecem a líbido e dão asas à minha imaginação. Na dança do ventre de babel onde no teu sonho és já mulher, a vontade acude a parir a seiva que te escorre pelo corpo e transborda por dentro.
Alvoreceu e despertaste-me de lá longe, ao meu lado. Sei que adormeces, madrugas no enlevo e transformas-te em criança-mulher ora inundada por mim, ora por ti. Abro os olhos e sinto-te, mulher que caminha por entre a areia da praia a esboçar linhas e trilhos os quais percorro e entregas-te no calor das dunas onde te desvendo aos poucos o meu sonho, onde te amanheço e se estancam as vagas de choro que o mar verte ao te ver no regresso impossível ao começo. O mar é cão, ouvimo-lo a morder enchendo-nos os ouvidos de buzio e o teu corpo quente do moliço para que oiças e sintas, no sonho, as carpideiras em pranto de lágrimas e salpicos de mar, pelo naufágio de uma fantasia de sal ao largo de um cabedelo tinto ao luar. Mas eu sonho-te, cinjo-te num abraço, alago-te de um oceano chão de ruídos. O mar é bom, envolvo-te, torno-te Lua, perto de mim, nos quartos ou cheia, com o coração espelhado a incendiar a noite desbravada onde te fazes despida, junto a mim, por cima de mim, ou dobrada no espelho de sal e areia com tua pele de tatuagens genuínas.