sábado, fevereiro 28, 2009

Light Up


Inspira, solta um grito, e corre...

Não pares nunca de correr mesmo que o tempo caminhe.
Corre como o vento, como o mar corre por entre e para lá dos montes e das marés, carrega em ti os abraços e os sorrisos, sorri... não percas a noção do horizonte, mais uns passos e o mundo é teu, inspira, exala todo o ar que carregas, transportas, aconchega a terra que pisas por entre os dedos que marcam as tuas pegadas soltas, lindas, apaixonadas... corre...

Inspira, sustém, fecha-te no mundo, abre-te aos céus, abre-te à escrita, às frases, às palavras, ao mundo mudo dos dedos que descobrem por ti, o tacto, o olfacto, pára... espraia-se o mar à minha frente, quero as ondas no meu corpo, o sal na minha pele, o sopro leve pelo cabelo das tuas palavras, corre... corre... corre num tempo que se transforma, te pertence, nos pertence, corre... corre à deriva no azul, no verde, nas cores que se misturam em dias de sol porque a chuva não se faz quando se encontram, os olhares...
Quando o sabor a sal se mistura com as águas do mar... pensar em ti... é inevitável.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

CHUVA


















Apetece-me assim regar a cidade de vinho, saborear-lhe o odor, acender o meu cigarro e incendiar-la...


Era de chuva que precisava. Precisava desesperadamente de chuva, um pouco de música francesa, talvez mesmo um livro e, quem sabe, um copo de café. Um copo de café iria bem.

Adormeceste. Caiste em sono profundo mesmo sem o barulho da chuva, sem a melodia suave das vozes das cantoras francesas, sem sequer o sono ter sido provocado pela leitura do livro, e tão pouco com o gosto do meu café na boca... A chuva sempre te traz à memória de maneira sutil. E já faz tempo que se ausenta entre nós... e nem ao menos sabe o porquê, dias de sol que me acompanham tão frequentes... Lembrar dos dias de chuva, tempo, abraçá-lo, oferecer-te flores... tempo em que descobrimos lugares diferentes mas sabiam-se onde. E faz falta, e principalmente porque vem à memória sem pedir licença, sem pedir nada. 

Agora sente-se a falta, agora, neste momento, nestes dias... e porque chove lá fora e o vento me traz as recordações prenhas de um sorriso longo, o brilho dos teus olhos me inunda o quarto e abro as janelas... deixo as gotas entrarem em mim da mesma forma como tu o fizeste... sente-se, os cabelos que me tocam o rosto, e o gosto do meu café retorna à boca, doce...

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Lume do meu Peito

Sensualidade, do corpo que a Lua ilumina, do brilho suave que a pele irradia. Nuance de cores esbatidas contra o negro da Noite. Beleza dos contornos que as concavidades ressaltam ao olhar.

Luar, tatuado na pele, imagem de mulher. Na pureza desta água que te reflete, que se cola e te envolve, entrego os meus dedos, que igualmente te abraçam, sentindo cada milimetro de ti.

Este pano translúcido que te cobre, deixa-me adivinhar o que não me queres esconder, deixa-me sentir o que queres que sinta, o teu corpo de cristal, solta a luminosidade da tua alma, que se reflete, neste espelho de água.

Menina, mulher, feita de sonhos, vestida de nadas, na incessante procura de tudo. De olhar distante, e pensamentos profundos, voas, como o vento, procuras com o desejo de já haver encontrado. Nos teus olhos vejo o arco-íris que nas manhãs de outono corta o negrume das nuvens, anunciando a esperança do céu azul, nas tuas mãos sinto a ternura de quem sente para lá do coração, nos teus lábios procuro a doçura que a vida, amargamente, me tem roubado.

Menina, mulher, em teu corpo desnudo me deito, te amo e adormeço, nasço, no teu ventre, de novo.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Momentos

Todos nós gostamos de viajar de vez em quando. Muitas vezes fazemo-lo usando a magia que a nossa mente nos fornece.
É este o início de uma viagem. Uma viagem sem fim previsto, com o sabor da incógnita presente, calcorreando caminhos empedrados, planícies de verdes mantos, frescos, de brilho cintilante, montes rochosos, cobertos de alva e reluzente neve, vales vastos, de uma doçura imbutida.
 
' -Existem momentos que nos fazem parar, por um instante, este ritmo alucinante que nos empurra para a frente e nos transporta adormecidos na corrente indelével da vida. Sem nos apercebermos a vida enrola-nos e segue um certo sabor próprio sugando-nos o tempo que usamos para pensar e estimulando os instintos naturais que nos são inerentes e inquestionáveis.
Surgiu-me um desses momentos e a pergunta que bailava na minha frente era “Porquê?”. Sabia que a resposta não seria encontrada com facilidade, como tudo na vida que requer resposta, mas decido, então, levado pela curiosidade de tudo querer saber, de encontrar a solução para esta grande questão que agora não mais saía do meu pensamento, tornando-se uma questão de vida.
São momentos como estes que têm significado e nos fazem sentir que o universo obedece a uma certa lógica muito difusa que buscamos entender, ainda que pareça que essa lógica encete uma fuga previa e genialmente preparada cada vez que nos encontramos perto de desvendar e desmontar todos esses mistérios de vida.

Foi com um espírito de brio, perfumado pela inocente coragem que nos move a todos nós, embebido de aventura e de uma grande excitação que encetei a minha jornada, acompanhado do meu pequeno livrinho vermelho que trago sempre comigo e me “fotografa” as sensações.'

sexta-feira, dezembro 26, 2008

Fome

Presa em duas mãos por entre lábios feitos reféns pelos meus. Desejos que se perdem à procura do que é certo, corre pela calçada dessa Lisboa que te abriga, deixa que te descubra. Chega de torturas intímas, abraça-me, deixa-me te olhar por entre o espelho que espera ser olhado, descobrir-te por entre a nebulina dessa manhã que descobrimos a cada dia que nos olhamos.

Sinto a fome de te escrever, transformar-te na pauta por onde os meus dedos escorregam na vertigem do prazer... frases feitas ou talvez não.

Sento-me à esplanada da Avenida e vejo-te ao longe, cabelo solto e delicado deitado sob o teu rosto, olhos brilhantes e curiosos em busca do tudo e do nada, um sorriso preso sem fraquejar de passagem pelo principio meio e fim dos teus lábios carnudos e delicados, como uma caixa de chocolates, prestes a desvendar o sabor doce que se esconde.

Sinto a fome de te ter...

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Enquanto

Aproximo-me... lentamente... com serenidade... como se eu fosse o trajecto que timidamente vou percorrer e o destino que vou conquistar. Fico perto... o suficiente para te ouvir respirar, para sentir o teu coração bater, para absorver o calor que se te evapora da pele.

Contemplo-te... como se fosses uma peça rara de fino cristal, um quadro valioso de um pintor famoso, uma gota de orvalho, singela, sobre o corpo aveludado de uma rosa. Sente-me... pedes-me... como se fosses um farrapo delicado de nuvem que esvoaça pelas janelas da tua vida. Toca-me... imploras-me... com delicadeza... como se de um pássaro acabado de nascer te tratasses e deslizo... desde a ponta dos dedos, passo pelas tuas mãos e vou subindo pela tua pele trémula e macia.

Repouso o meu toque no teu rosto e seguro-o... como se fosse o meu bem mais precioso. Deixo que a tua boca descubra o mel da minha boca e que os nossos lábios se unam num momento mágico de prazer.

Permites ao meu nariz deslizar sobre as curvas do teu pescoço alvo e inalar da tua pele o teu aroma quente que mulher, o teu perfume fresco. Desnudo o teu corpo frágil e liberto-te de tecidos e pudores e deito-te numa cama feita de amor, com edredons de penas feitos de desejo, lençóis bordados de carinho, almofadas engomadas de mimos. Preparo-te um leito onde te sintas protegidas, onde me aninhe em ti e me possa perder para me encontar.

Solta a tua voz em doces ecos ao meu ouvido... adoro ouvir-te tão perto.


sexta-feira, setembro 19, 2008

Não sei...

Pequenos gestos, silêncios, pequenos momentos, acontecimentos. O Mundo esta repleto de instantes, pequenos tesouros que passam despercebidos nas horas que se nos atravessam os dedos na constante correria que teimosamente trilhamos neste fluxo de tempo.

Num instante, tudo se transforma, se forma, mas nada muda. O cais onde agora se sente a actividade plena dos barcos a atracarem, era o silêncio das gaivotas ainda à pouco. Nesse instante uma beleza única se forma para desaparecer logo em seguida, e quem sabe, sem mais a voltar a ver. Sente-se o seu calor a entranhar-se na pele, pestaneja-se ao sabor da maré embalada pelo vento.

O tempo passa e os sapatos acusam as rugas de uma longa caminhada onde não se conheceu um início intrincado, complexo e carregado de desvios, antes simples, leve, sereno e contrário ao movimento incessante que nos causa vertigens para onde se corre com tanta pressa, sem nunca se saber exactamente para onde.

Se pensam que o destino está traçado, antes se busque uma folha de papel lisa, e se deixe que o traçado apareça, mesmo quando se tenta sem sucesso o desenhar.

Não sei esquecer o que nasceu para ser não esquecido, mesmo que se vire a página do diário, os olhos deslizam para o armário que se encontra repleto de instantes coleccionados ao tempo, bilhetes que se sussurraram por entre carteiras de estudante numa dessas aulas de contemplação dos olhos de amêndoa que me deliciam, sempre que os meus pousavam neles.

Dança selvagem e respiração cavalgante... livre... como as ondas deste oceano que se estende ali bem à minha frente. Não sei esquecer...

domingo, setembro 14, 2008

Para que serve um Homem?

Hoje dei por mim indagando isso mesmo. Para que serve um Homem?

Esta questão é uma daquelas que todos os homens garantem saber a resposta e para a qual ninguém irá nunca admitir o contrário, sábios conhecedores da realidade feminina e de tudo aquilo pelo qual esta anseia e deseja. Meus caros... como andamos enganados.

Primeiro um homem serve para lhe lembrar, a ela, o quanto adora ter nascido Mulher. Serve também para lhe olhar como se diante de um E.T. estivesse quando esta frente ao armário amontoado de roupa constata que "não tem nada para vestir", nada mesmo.

Serve para notar sempre, todas as vezes em que ela lhe aparece com três milimetros de cabelo a menos e dizer que foi uma mudança brutal, incrível.

Um homem serve também para lhe coçar as costas até que adormeça de "cansaço".

Serve para lhe dizer todos os dias que a ama e todas aquelas palavras que lhe acariciam o ouvido e que tanto adoram ouvir. Óbvio que um bom homem tem de "aguentar" que ela lhe repita isso de manhã até à noite fazendo uma cara de felicidade, como se acabasse de receber uma boa nova... "como conseguimos ser tão frágeis diante delas e por elas".

Um homem serve para lhe dizer "Estás linda!", ao invés daquelas palavras suicídas "Mas tu vais com essa roupa?"

Mas um homem também serve para fazer inveja as amigas, principalmente aquelas que nunca conseguem nenhum, é nessas alturas em que... "Epah onde está o lencinho? Algo escorre no canto dos lábios delas! Será gloss? tss tss tss".

Um homem serve também para lhes dar aquela reconfortante sensação de que fará toda a diferença chegar uma hora mais cedo, serve para ajudar a criar toda aquela atmosfera familiar com todas as chatices que a faz, completa e absolutamente necessária e insubstituível.

Um homem serve também para a levar a uma visita erótica ao jardim do Éden, e por entre sussurros ao ouvido, lembrar-lhe que sentir-se amada é algo que adora que lhe percorra a pele como se de um arrepio se tratasse.

Mas elas sabem que esse homem é o "tal" quando ele já teve a oportunidade de ver aqueles fiozinhos de cabelos brancos brilhando entre uma e outra visita ao cabeleireiro, sem que as façam querer cortar os pulsos, quando ele sabe que é humano ressonar e ainda lhe oferece uns beijos para que não se sinta irriquieta, quando ele compreende o que é ter uma daquelas fomes de "leão" e medo de aranhas e trovoadas, ter cólicas, dores de cabeça e desejos, mesmo os mais estranhos, que se lembra dela quando vê uma linda bolsa numa dessas montras de um shopping que percorre ao seu lado à quatro horas seguidas e ainda assim mantém a frescura de quando lá entraram... ou um simples chocolate crocante.

Um homem também serve para lhe oferecer o aconchego de uns mimos e um lenço quando ela chora ao ver o filme "Cidade dos Anjos", e não esboça um único riso, pelo contrário, aquece-lhe ainda mais a alma...

Não existem Homens perfeitos, apenas verdadeiros amantes e reais companheiros que se preocupam acima de tudo, com o bem estar da Mulher que Amam.

quinta-feira, setembro 11, 2008

Tempo que me trás mais Tempo!

Respiro um estranho e maravilhoso silêncio, que me fala numa linguagem marítima e sensual. Apenas sei viver num vendaval de amor com os olhos carregados de chegada lonjura, respirando o carregado odor... feminino.

Respiro uma aconchegante voz ondulante de melopeia infantil por onde liquifaço-me de sonhos para o amplexo desejado oceano, onde os espaços se fecham pelas ruas... e a vida sempre continua.

Esse tempo maldito que refreia o meu desejo com a sua canção impiedosa e ritmada do desfazer de espuma. Um grande amor não se possui... espraia-se suavemente em marulhares sucessivos de marés! E nessas ondas, o meu coração sonda o seu silêncio sussurrante.

Oiço a melodia terna aos meus olhos, "sou de quem me quiser amar no afogamento cego de mim, e nele apenas segura gentilmente minha mão... e me abraça."

Aguardo a onda rebelde, não pretendo ser o arquitecto das estrelas, antes pintar-las no pestanejar dos teus olhos num longo anoitecer.

Quero... muito... que o tempo passe.

segunda-feira, junho 23, 2008

XXXV - INTEMPORAL

Acodem-me as palavras numa febre subtil de intenções, frutadas, quentes, embriagantes, como um bom vinho rosado e encorpado a exalar sumarentas delícias das mais puras castas de uvas!

Ardem-me as intenções na carícia breve dos gritos que ecoam dentro do meu peito e cujo destino se faz apenas em um só sentido, (in)voluntário, (im)perceptível, (in)contido... como a ténue deslocação do ar do mais débil pestanejar. O olhar solta-se entre aqueles que ali se juntam a mim, arde-me o atrevimento do ser, do querer e do poder, no formoso portal dos lábios em flor, rubros, ávidos, trémulos de um desejo maior que ainda ninguém se apercebeu, milimetricamente controlado ao rigor do destempero a que ascendo em espirais de (in)dissimulada agonia pelo desconhecimento do seu paradeiro.

Sinto as entranhas a arder, ardem-me os lábios por um (im)provável toque que me ascende ao virtual bramido de um beijo. Inalo o pó que nos abraça num acastanhado sabor de guerra, estendo a mão num momento etéreo, fecundo, (in)submisso onde o pensamento selvagem já adivinhou, ousado e livre, perfilado pela cumplicidade daqueles que ali junto a mim, por detrás de sete véus de terror e de refinadas transparências, uniam-se a uma só missão.

Arde-me a fragância do beijo húmido enquanto percorro os corredores explosivos de um desconhecido labirinto na tangencial amplitude do céu da boca como inferno em chamas... o purgatório que agora atravesso carregado entre braços por quem desconheço, mas corremos impacientes, enquanto a abrasiva dor me atravessa a pressa da saliva morna que se vai secando com o tempo, misturada no sabor a mel e a sangue vivo, no travo amargo ao fel da cupidez.

Ardem-me os olhos, a pele e todos os sentidos, abruptamente inflamados, inadvertidamente despertos, impregnados de uma inexplicável e indecorosa urgência, como que rabiscos fugazes escritos na pele... talvez seja este o sabor da morte, do cessar dos sentidos de uma ceara dourada numa planície ardente de promessas por cumprir.

A minha vontade desabrigada deixa-me indefeso na penumbra das intenções de quem ali se apressa a tentar remediar a agonia que se me apodera das linhas do meu rosto. Mas a breve carícia do fogo no desassossegado daquele olhar e o mar encrespado que crepita o galgar furioso do sangue que me escorre das muralhas do meu recato, descobre-me lugares inexplorados no desnude da lisura da pele que ali me toca e retoca, o tecelão que compõem a sua malha. Oiço breves palavras e num breve instante aquele que se fazia do meu casulo é transportado rapidamente para fora daquelas paredes. “Onde estou?” - perguntava-me num tom de murmúrio de voz que se quer ouvir mas secreta e cansada. O silêncio das vozes era tudo o que me respondia, e aquele hálito doce e quente, a aflorar-me a nuca, a percorrer-me de lés a lés, o pescoço alto de garça até onde outrora crescia cabelo, a colar-se-me de mansinho ao desalinho das rugas e da boca faminta... era o frenesim intenso da loucura a quebrar-me a resistência. Abro os olhos de tempos a tempos e observo ao largo avenidas de paredes esburacadas onde outrora se penduravam cacifos de vidas e admiráveis lagoas cheias de vida.

Passeavamos certamente pelo lado mais turco da cidade, reconhecia por breves momentos certas frases, algumas teimosas placas que ainda ali existiam, como a de um restaurante, o “Inat Kuca”, pelo seu aspecto exterior teria sido uma antiga casa turca remodelada para aquele efeito e que ali ainda existia junto ao rio.

Somente o abismo esfíngico e hipnótico dos meus olhos sabiam para onde me levavam, as mãos exímias, de artífice do amor, feiticeiro do momento que guardava sagradamente na película firme da minha camera, abertas em concha e rubras pela crime, estendiam-se ao limite do horizonte numa harmoniosa linda da delicada cintura do teu rosto.

(Continua...)

domingo, junho 01, 2008

XXXIV – UM CRIME PERFEITO

Numa orgia de cheiros e sensações, sabores que me percorrem a saliva e se perdem por entre a inquietude do ar que inspiro, quebram-se as forças qual pétala molhada em manhã orvalhada. O peso do universo cai largo no meu véu banhando-me num arrepio de doce ternura inversa à sua razão.

Caiem as pétalas por onde a minha voz viaja num vermelho rubro de paixão por onde viajo incauto na noite misteriosa e pálida do meu rosto. O meu corpo de novo estremece neste som que ondula num louco turbilhão dentro de mim. Deixo-me cair, tocar com os joelhos longamente nas lajes que se desenham por baixo de mim exalando um perfume de derrota por onde os girassóis de outrora polvilhavam ao meio-dia milhares de pólens reluzentes numa dança frenética e reluzente na minha pele em busca da tua.

Solto uma gargalhada, seguram-me a mão contemplando firmemente os meus olhos. Sussurram-me palavras enfeitiçadas como que anestesiando-me com um brilhozinho nos olhos. Sei que estou ferido, sinto o despertar da dor que me atravessa o impossível e proporciona uma autêntica odisseia dos sentidos, o despertar de novas sensações. Transcendente é uma palavra demasiado frívola para descrever algo que não tem precedentes e que me envolve numa névoa misteriosa e incompreendida de uma forma tão imprevisível.

Questiono o porquê de agora me quererem afastar de um número de probabilidades que aumentavam nitidamente em direcção à fuga do meu exílio, e de repente, o cheiro a carvão queimado, feito em brasa, olho nos olhos de quem me deu guarida e encerro os meus não sabendo o que esperar daquele momento.

Há palavras que dão vontade de mastigar, saborear a textura inocente que me entorpece os sentidos. O arrepio que se me cresce dos pés é novidade para mim. O teu rosto é a sombra que me povoa o pensamento neste instante e confesso que nunca me saíste da cabeça. Chove no meu rosto gotas de tristeza, alecrim murcho pela névoa de um inverno rigoroso. Quero acreditar que verei de novo os nenúfares dos teus olhos e a água doce do teu sorriso no qual sacio a minha sede. Cansaço, é o peso do universo que agora sinto em mim e tudo o que me acalenta este momento é o descanso desmesurado que sinto necessitar.

Um cinzento calado invade a cidade e estremeço. Desço as escadas do meu olhar e fito as mãos que se avermelham como se um balão de ar quente tivesse por ali passado e queimado a química da alma. “Ricardo!” – solto em voz trémula antecipando um calafrio que jorra da minha fonte e se faz rio na tua foz.

Ali parados num deserto de nós moscada nada poderia fazer. Num átomo de fé abro a porta do veículo e salto para o lado direito do inferno em busca de uma colina protectora. Corro, corro e corro como atleta de maratona acreditando que o céu é mais abaixo e por isso não tenho medo de cair. O meu coração está a meio da ponte, sinto o vento que sopra de norte e desce em direcção ao sul, a brisa mostra-me o caminho e sigo-a como aprendiz carente das palavras do seu mestre.

Encontro um casulo ali mesmo, um pouco mais abaixo, e olhando para trás, surpreende-me a distância percorrida. Oiço o motor a trabalhar e lá de dentro saiem três soldados que correm pelo lado esquerdo do inferno junto as paredes do purgatório. São alvos perfeitos de quem se esqueceu das flores em punho. Oiço o zumbir e o estalar das balas que se encontram com a parede e estilhaçam uma quase vida. Instintivamente levo a mão à cintura e rasgo o silêncio do meu espaço com o premir do gatilho da minha arma de segurança pessoal. O fogo saiu do cano de aço gélido por seis vezes, e um crime perfeito ganhou forma.

Seguros e ofegantes por terem de correr um longo espaço que os separava da minha silhueta, olham-me sem as palavras soltas de espaços e exclamações, descongeladas pelo calor de quem atravessara o inferno, e sinto-me graça das suas orações.

Escuto o vento sem arranhões e sei que é chegada a hora de partir em busca de quem me faz falta.

([sim estou de volta] Continua...)

quarta-feira, abril 30, 2008

A SEU TEMPO


Não é urgente chegar, o que é preciso é viver!

Há um tempo para tudo. Hoje caminho descalço e sinto o arrepio da pedra que me beija os pés e peço para que me despertem deste sono ao meu redor. Há um tempo para tudo... este é só meu e peço que me deixem ser egoísta, maltratar a minha própria alma, parti-la em dois e esconder um dos pedaços para que um dia, seja tesouro descoberto.

Continuarei a minha história que me embala o pensamento e alimenta o espírito... no seu tempo.

segunda-feira, abril 21, 2008

XXXIII - DESCOBERTAS

Perdido por entre fantasias de gestos sem pudor, como que mergulhado num olhar mágico, longínquo, oiço o rufar dos tambores do conflito que invadiu aquela cidade. Tudo se fecha nesta fresta de tempo que nos antecede o desastre, e quando abrimos os olhos agora no futuro, entregamo-nos às recordações que um dia gostávamos de não as ter.

No albergue que me fora oferecido, sentem-se as paredes a estremecer. Os bombardeamentos haviam de novo iniciado. Olho para as faces dos meus protectores, a dela que junto ao que presumo ser o companheiro, roçam-se levemente entre suaves forças e trocas de amor, promessas de almas que se amam no silêncio de um beijo trocado por entre olhares que tudo dizem e nada falam.

Há uma fórmula mágica de odores, perfumes e sabores que embriagam os sentidos naquele espaço. Aqueles dois despem os olhos que se encerram numa languidez inversa à explosão de emoções que eclodem por entre ternuras, a cabeça que pende sobre o pescoço e certezas que estarão juntos mesmo que atravessando uma nascente turva.

Por momentos o tempo encontrou ponteiros ensonados, nada mais naqueles rostos fazia sentido à excepção do doce e borbulhante serpentear de sensações que lhes percorria o corpo, o frio na barriga quando se beija pela primeira vez, a tremencia disfarçada das mãos dormentes que desenham no ar as formas de um amor simples e sincero. O mundo ajoelhava-se ao seu mestre, podia sentir a essência daqueles dois, a sintonia do seu sentir, a magia de um amor em guerra, perdidos dentro de lembranças que o tempo não apagou da pele... sinto-me como se pelas margens de um rio descesse montado no pulsar selvagem de um coração que suspira, um privilégio assistir pelo avesso às carícias mascaradas de desafio, e eu ali, ausente nos dedos da minha câmara.

Suspiro... no corpo ausente de mim que reconheço cansado, encontro naquele momento a curva ascendente das minhas próprias emoções e perturbações. Branco como as paredes que me acolhem cerro os lábios e olhos pesados com que eu próprio me olho do alto dos meus desejos e encontro as duas mulheres que agora pertencem às páginas do meu pequeno mundo. Apenas uma contém o beijo que se esconde por entre as palmas das minhas mãos e que anseio em descobrir como um tesouro encantado, o toque longe do tempo que me enleia.

Ao olhar por entre as grades daquele espaço onde outrora um vidro separava a vida lá fora, ganho asas de vagabundo sem rumo e deixo que me perca em sensações que vejo derramadas em cascata sobre a minha pele nua de mim. Imagino e quase consigo sentir na boca o doce mel que a tua língua inventa quando toca a minha, e ris-te porque sentes o que eu sinto, a pressa em te beijar, o desejo que desfaz as malas do passado e percorre noites longas de insónia, sabes-me a sussurrar-te partes de mim que conheces e outras que descobres. O sangue pulsa nas veias, entrega-se ao espaço deixado na ternura, o corpo exausto do prazer que não teve, responde à alma e os olhos abrem-se com a imagem da terra prometida por onde a saudade e o sorriso renasce no rosto da que amo, a lembrança viva do que eu sou e quero para mim.

No ar repentinamente desvanece a música dos murmúrios loucos, a realidade adormecida acorda-me lentamente como um sopro sentido por entre o pescoço. Olho de novo o casal que me abrigara e o olhar que ainda há pouco se inundara de um amor imenso, fita-me assustado. Não percebo e sua razão, e assim fiquei por instantes me passam como horas por entre dedos finos, e tento, tento soltar palavras de sossego e nada me sai... olho as minhas mãos e um céu cinzento se desenha por entre o rubro vermelho que nelas cai como ondas que se esbatem na quilha de um navio à deriva. Sinto a brisa quente do meu sangue que cai como rosa cansada. Não percebo, a confusão instala-se aos meus olhos e pergunto-me qual a parte desfalcada do meu corpo que havia sido desfolhada com uma qualquer bala perdida...

(Continua...)

quarta-feira, abril 16, 2008

XXXII - A PROCURA

Aquilo que sinto é a razão que me faz lutar e me faz querer chegar além e sempre mais do que esse além. A minha fonte de inspiração transformou-se agora, as palavras que morrem ao cair no papel não são mais do que meras sensações que a alma agora grita com um basta a uma vida de momentos e amores fugazes de instantes que deslizam por entre os dedos nesta realidade assustadoramente má. Pensei que ia continuar esta vida tal como era antes de entrares na minha vida, mas hoje compreendo que apesar das razões com que nos cruzamos, apesar do passivo que a tua vida carrega, apareceste como a brisa que vem para a tarde quente de verão, por laços reais que não vemos e sinceramente não sei mais o caminho que vou seguir a não ser aquele em que tu estás presente.

Soam os alarmes de saída do pelotão, apresso-me para a caravana que sai em busca e auxílio das populações mas és tu a razão pela qual as faces destes soldados se vestem de guerreiros. Entro no veículo e instintivamente fecho os olhos. Solto uma prece de fé, um pedido, um desejo que tudo volte a ser como era, contigo ao meu lado. O silêncio é rainha porque o rei é ausente. A caminho das portas da cidade tudo o que encontro é o desespero e destruição, caravanas da cruz vermelha a socorrer feridos e a esconder os mortos. “Meu Deus!” saíram-me estas palavras sem mesmo as pensar. As atrocidades que ali jaziam naquelas estradas eram por demais horrorosas, crianças perdidas, feridas, corpos irreconhecíveis ao ser que se diz humano, o cheiro intenso, uma mescla de odores de ódio queimado materializado em objectos desmembrados que não me atrevo a reconhecer como corpos, caso o fizesse o meu estômago não aguentaria. Esta frieza que reconheço em mim é agora bem vinda.

Escondo-me na saudade, na falta que sinto na tua ausência e penso como será possível alguém entrar na vida de outro assim tão repentinamente com uma paixão incontrolável, oferecendo sonhos que imaginei para uma vida inteira e sentir que tudo isso é recíproco. Eu queria voltar atrás só para ficar contigo, mas quero me apressar neste presente para alcançar o futuro onde te resgatarei do alheio e apresso-me a dizer, oferecer-te a minha vontade de ser o que ambos quisermos, mesmo que isso signifique ausentar-me do perigo.

O inferno era já ali à frente. A caravana pára e os estrategas reunem-se, iremos nos dividir em grupos e penetrar na cidade como estranhos num casamento, cuidadosamente e alienados, tomando o pulso às ruas e às vozes que saem das armas que cospem fogo e balas perdidas. Ardo em arrepios que me consomem a pele e adivinho a loucura que se aproxima sem ninguém me ter contado o desarrumado que visitamos.

Os grupos dividem-se e o meu leva o rumo do sudeste da cidade, escuto o ritmo continuado do vaivém das poderosas armas, este conflito dura já à tempo demais e perco-me na tentativa de compreender a razão do mesmo e os porquês que se diluiram já com o tempo passado. Admiro no entanto aquelas gentes que dali fizeram os seus lares e se recusam a procurar o abrigo do sossego. São pessoas como outras quaisquer, mas nos seus rostos vemos os traços da resistência, a persistência, não consigo encontrar a linha da derrota e habituaram-se a fazer daqueles dias uma normalidade estranha. Parecem-me hipnotizados. Assim como aparecem, desaparecem, vultos invisíveis que se escondem por entre as paredes esventradas, a sensação é estranha, como se no seio de uma selva todos os animais fizessem silêncio, ficando à escuta do perigo que se aproxima.

O medo invade-me pela ponta dos pés e a adrenalina desperta-me os sentidos. Sei que estamos em perigo mas não o encontro em lado algum. Avançamos lentamente pelas avenidas, apesar de blindados, os veículos são isco fácil num mar de tubarões. Ninguém se atreve a sair, marchamos passo a passo em linha recta tal como o jogo de criança “siga o líder”. E então tal como um presente envenenado, rasga-se o silêncio e somos alvo dos atiradores furtivos apesar de estar-mos perfeitamente identificados como elementos em missão de paz. Institivamente agacho-me, oiço o zumbido das balas que encontram na massa blindada das portas o seu repouso final. É arrepiante saber que tudo o que nos separa são centimetros de aço, e pensamos por breves instantes na fatalidade que pode acontecer. O condutor acelera, não pode permitir aquele chuveiro contínuo a cair sobre nós. Passamos a estar dentro de uma qualquer misturadora de sumos tais sãos os abanões com que nos deparamos nas curvas apertadas que o condutor desenha com o volante do veículo. O operador de rádio reporta a nossa localização numa voz arrepiada e apressada. As suas indicações não são claras mas percebe-se que rumamos a norte, agora para sudoeste numa rua apertada e sem saída. A travagem repentina atira-me para cima de um colega soldado. O veículo recua e estamos claramente encurralados dentro daquelas portas. O condutor procura a toda a pressa um abrigo, um local onde possa parar fora do alvo das miras telescópicas dos atiradores furtivos.

Pelo rádio ouvem-se relatos idênticos, o desastre é geral e todos procuram abrigo, a vontade de ali ficar evapora-se a cada segundo que passa mas não desistirei de procurar Ricardo.

(Continua...

quinta-feira, abril 03, 2008

XXXI - DESMASCARADO

O dia levanta-se fresco e harmoniosamente quente. O sol já cumpre o seu papel e abarca o pensamento de um novo dia, novos desafios, sensações, um novo convívio com os traços, paletes de cores e emoções que deslizam por entre um rio quente de almas inquietas dos seus criadores. Eram já dez horas da manhã e a galeria teria de ser aberta. Apressei-me no café da manhã e pousei o jornal diário que me despertou com uma notícia de uma exposição na Fundação de Serralves alusiva à violência institucional e poética. Saí a correr daquele local que nem me atrevo de chamar de “Café”, era mais um símbolo tradicional da cidade de uma cultura local bastante fincada num trajecto bairrista daquela população, por entre os seus frequentadores carinhosamente apadrinhada de “tasca”.

Há dias assim, em que correndo passeio fora nos apercebemos da velocidade rara e dimensão inventada das nossas vidas. Olho para o lado e tudo gira a uma velocidade infernal, abstenho-me de pensar. Para piorar a sensação era o meu aniversário e por isso esperava já o impulso da alma que me fechava a porta a um velho ano. Pela primeira vez iria comemorar sozinho, sem amante ou confidente, o melhor amigo em viagem novamente. “Que espaço é este onde me mantenho fechado em troca da minha liberdade?”, pensava eu enquanto abria as portas da galeria.

Novamente o ritual, a forma encontrada pelo meu ser em apreciar e descobrir algo de novo nos quadros expostos, nos momentos únicos capturados através de uma lente, as faces ruborizadas a preto e branco onde na dúvida se evidenciam ao olhar de um fotografo indiscreto. Gosto particularmente do trabalho do Ricardo. Sempre que revejo as suas fotografias, oiço, vejo, sinto, mas não estou lá, choca propositadamente com o tradicional, contorna o arrojado indiferente como a chuva que nos molha e ensopa a alma. Não é muito apreciado porque nem todos sabem-lhe reconhecer os afectos que o preenchem e a crepitação da alma que devora tudo aquilo que sente até ao limite. É um explorador nato dos sentimentos alheios.

Não recebia notícias dele desde que se havia ausentado à alguns dias e curiosamente no dia em que partiu havia recebido um telefonema mesmo antes de fechar a galeria, solicitando para reservar o seu trabalho que estaria exposto, principalmente uma foto, um auto retrato. Estava nessa altura no seu auge emocional, a carreira deslizava como uma faca por entre manteiga derretida, havia encontrado uma mulher com quem partilhar os seus dias, e como tal, decidiu revelar um pouco a máscara por detrás da lente da sua Canon. O estranho ainda no entanto era alguém querer comprar o seu trabalho, como tinha já tido a oportunidade de lhe referir. Voltei para a o meu canto da sala, o brilho do dia iluminava já a entrada, os raios de sol formavam um curioso arco vindo das grades superiores da fachada dando um ar um pouco imperial ao espaço.

A porta abre-se e de lá surge um vulto feminino, proeminente nas suas formas majestosas e possessivas de olhares alheios. Trajava um longo vestido preto com frinjas verticais branqueadas, uma autêntica fotografia de cartaz. Os passos eram dados com convicção, cabelos longos, bem abaixo dos ombros e doirados, chapéu branco de abas largas e uma pequena mala debaixo do seu braço direito. Aquele figura parecia ser uma personagem de hollywood, uma celebridade. Aproximou-se e perguntou pelo director da galeria – “Fala com ele mesmo, João de Bettencourt ao seu dispor!” – exclamei eu numa pose tradicional e com textos pensados ao pormenor. Alguém que dedicara o seu tempo de manha a se preparar daquela forma, era sem dúvida merecedora de palavras cuidadas e atenciosas.

- “Muito prazer, conforme falamos telefonicamente, venho resgatar o trabalho fotográfico de Ricardo Torres e estou preparada para ser generosa na sua aquisição”.

Não sabia se havia de ficar perplexo com aquelas palavras ou a evidente frontalidade daquela mulher que ali estava à minha frente. Pela forma como aquele discurso fluiu, é certamente alguém que está habituada a conseguir o que pretende. Assim sendo optei por a levar para junto do espaço onde as fotografias do Ricardo estavam expostas, necessitava de explorar um pouco mais sobre quem esta mulher seria e o porquê do seu interesse naquele trabalho. A minha curiosidade era maior que o acto comercial em si.

Dentro das vozes que me atormentam o espírito e desassossegam os encontros neste mundo de rumores, oiço boatos, cantilenas de cenários sangrentos na cidade que me toma o fruto do meu desejo. São essas lengalengas que giram cegas que me levam apressada até à praça como um incauto ouvinte. Aliado da verdade é o silêncio da sua voz que me governa os sentires dentro e fora de mim. Vivia agora uma anarquia de ideias que me tomavam a destreza e a serenidade. Sentia-me prostituta do tempo, vendia-me ao segundo que passa descompassado em troca de um enigma desvendado. Ali junto a um dos veículos, o comandante, os preparativos haviam sido ultimados e esta missão de auxílio e paz havia agora também se transformado numa missão de busca e salvamento. Lá fora, centenas de pessoas percorriam as estradas num êxodo total da cidade, e nós quase de saída para a entrada triunfal no inferno de Sarajevo.

(Continua...)